|
|
|
Confira aqui o trecho inicial do romance de Ricardo Hofstetter:
“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.
Tolstoi inicia seu romance Ana Karenina com esta frase. Não gosto de russos. Nem de americanos. Para ser sincero, não gosto de franceses, ingleses, turcos, argentinos... nem mesmo de brasileiros. A verdade é que gosto de muito pouca gente nos dias de hoje. Pensando bem e vasculhando meu curtíssimo círculo de conhecidos, percebo que não gosto de ninguém. Nem do veado do Roberto, meu único amigo, posso dizer que gosto de verdade. Acho que apenas o tolero. Talvez porque ele seja um dos últimos a me tolerar também. Sou um sujeito desagradável. E não faço esforço algum para ser diferente. Se tenho motivos para isso? Muitos. E mesmo que não tivesse, inventaria. Esse mundo fodido em que vivemos já é motivo suficiente para justificar o mau-humor de quantos sejam. Voltando ao Tolstoi, discordo de sua frase. Não são as famílias, mas as vidas felizes que se parecem entre si; as infelizes é que são infelizes cada qual à sua maneira. Vivo uma vida infeliz e não há nada de mais nisso. Minha vida amarga é apenas mais uma no meio dos tantos infortúnios dos quais esse mundo fodido é feito. Nesse mundo torto, ser infeliz é a regra, a normalidade; a felicidade é que é uma aberração, aborrecida e par. A infelicidade não, é admirável e ímpar. Cada qual à sua maneira.
* * Nicole levantou a saia e mostrou alguma coisa a Sheila. Era uma terça-feira de chuva, quase uma da manhã. O bar do Cabral estava a meia bomba, com poucos clientes e os bêbados e as putas de sempre. Só eu reparei no gesto discreto de Nicole. É a minha cara isso. Sempre presto atenção naquilo por que ninguém se interessa. Definitivamente sou um sujeito torto. Depois de mostrar a Sheila o que queria, Nicole levantou os olhos na minha direção, deu um sorriso safado e cobriu as coxas com falso pudor. Tive que me controlar para não ir até sua mesa e agarrá-la. Nicole tem coxas esplendorosas. A mulher que eu tentava levar para a cama voltou do banheiro reclamando da sujeira. Eu disse que o Cabral era um babaca que não se preocupava com nada além dos trocados que ganhava dia após dia naquela merda de bar. Clara reclamou do meu jeito de falar: — Odeio gente que fala palavrão. Disse para eu me cuidar: de cada três palavras que dizia, uma era palavrão. Tive vontade de mandar Clara tomar no cu. Detesto essa gente idiota que dá uma importância fodida a coisas sem importância alguma. Uma montanha de crianças está largada pelas ruas, a bandidagem come solta, estamos destruindo o planeta e os babacas ficam ofendidos porque um repórter de merda como eu fala um palavrão a cada três palavras. Ia mandar Clara tomar no cu, mas lembrei que não trepava há mais de uma semana e aquela chata parecia ser o diabo na cama. Disse que por ela ia me controlar e não falei mais uma porra de um palavrão a noite toda. Não adiantou. A vaca não quis ir para a cama comigo. Ficamos num mela-cueca dentro do meu carro até que ela disse que estava tarde, tinha que acordar cedo no dia seguinte, mas que tinha sido ótimo conversar comigo. Saiu do carro e bateu a porta. Não sei se foi a falta de sangue no cérebro ou o excesso de cerveja ingerida no bar do Cabral, mas só consegui dizer alguma coisa quando meu pau amoleceu e Clara já me mandava um tchauzinho ridículo da portaria do prédio: — Piranha filha da puta! Fui para casa inconformado. Me masturbei pela terceira vez naquela semana.
* *
Queria que me entendessem. Não é que eu seja grosso. Tive até uma educação muito boa, estudei em colégio de padre, daqueles bons, com um monte de riquinhos que hoje são todos muito bem sucedidos. Meu nome é Marcos Sacramento e meu problema é que perdi a paciência com a vida. É tudo tão errado que acho erro maior se preocupar com futilidades. Aí desando a falar palavrão, sou grosso com as mulheres, escrevo frases com pronomes oblíquos no início e falo essas coisas que chocam as pessoas. Sei que estou errado, mas não consigo agir diferente. É mais forte do que eu. Acho que é por isso que sou um fracassado, um looser, como os babacas dos americanos dizem. Um repórter bom pra caralho, muito melhor que todos os chefes que já tive na vida, mas que não consegue entrar no esquema: puxar um saquinho ali, comer uma bundinha lá, dar para alguém aqui, uma mão lava a outra, e záz, lá vem a promoção. O Roberto diz que é desculpa minha. Estou fodido porque não sou profissional, não invisto na minha carreira. E cita seu exemplo: nunca bajulou, nunca comeu nem deu a bunda para ninguém e está aí, editor do caderno de cultura de seu jornal. Não sei se acredito nele. Acho que deveria. O Roberto é a única pessoa que eu ainda escuto. Mas duvido que ele não tenha dado aquela bundinha para ganhar o cargo de editor. Ele é meio esquisito. Acho que é gay e não sabe. É casado, a mulher dele é bem interessante, e tem uma filha de três anos. Mas isso não quer dizer nada. Está cheio de veado por aí com mulher e filho. O Roberto é o único cara com quem ainda consigo conversar sem me aborrecer. Às vezes até rio com ele. Ou dele. O filho da puta é bom, tem um texto ágil, direto, com ritmo, sabe usar uma vírgula como ninguém, o veado. Claro que em textos jornalísticos não dá para brincar com essas coisas. Mas tem uns contos dele, com umas frases de ritmos quebrados lapidares. Ele põe vírgulas em lugares que nenhum outro filho da puta de escritor iria imaginar de colocar. Dá certo. Cria um ritmo diferente, torto, como um blues do Robert Johnson. Já fiz testes: peguei suas frases e tirei as vírgulas. Viraram frases banais, que poderiam ter sido escritas por qualquer estudante de oficina literária. Mas com as vírgulas! Uma coisa de louco. Por isso desconfio do Roberto: um sujeito que domina a vírgula dessa maneira só pode ser homossexual.
* *
O meu problema com a Nicole é o seguinte: uma noite, no bar do Cabral, comentei, orgulhoso e bêbado, que nunca tinha trepado com uma puta. Quer dizer, que nunca tinha pago para trepar, pois quem é que pode garantir que a mulher que foi para a cama com você não é puta? Pois bem, desde esse dia minha vida virou um inferno porque Nicole cismou de tirar minha virgindade... como posso dizer?... mundana. Ela agora vive me tentando com descontos ofensivos e ofertas ridículas. Chegou a me oferecer sexo pela metade do preço, a filha da puta. Uma barganha, afinal, seu preço não deve passar de cinquenta reais. Não topei porque acho sua atitude uma babaquice, mesquinharia pura. Tudo o que ela quer é me igualar ao resto dos homens. E eu não sei se vale a pena me rebaixar dessa maneira. O problema é que tenho o maior tesão nela. Nicole tem coxas fenomenais. Tenho fraco por coxas bem torneadas. Não dessas musculosas, exageradas, mas daquelas bem desenhadas, discretas, onde os músculos apenas se insinuam. Desde esse dia vivo em conflito: devo ou não fazer a transação com Nicole e perder minha virgindade mundana? Podem achar o dilema ridículo. Especialmente para quem acabou de dizer que não liga para futilidades. Mas ponham-se no meu lugar: dizer que nunca pagou para trepar tem seu charme, confere uma certa superioridade sobre todos os outros homens que já pagaram por sexo. Acho que causa um efeito interessante nas mulheres, apesar de não me lembrar de já ter levado uma delas para a cama com esse papo. Quem me ouve falando pode até pensar que tenho todas as mulheres que quero. Não, não tenho. A Clara, por exemplo: não consigo levar aquela vadia para a cama. Mas também não sou um zero à esquerda. Tive meus momentos, como todo mundo. Talvez o fato de nunca ter pago por sexo é que me diferencie do resto dos homens. Gosto de me sentir especial e acho que minha virgindade mundana me confere uma certa originalidade. Se aceitar a oferta da Nicole, vou chafurdar na lama da mediocridade masculina. Não sei se quero isso. Por outro lado, sei que essa história não passa de uma grande babaquice, daquelas que eu mesmo abomino, mas, fazer o quê? Tenho meus defeitos, mesmo nunca tendo pago por sexo. O Roberto, que de vez em quando tira o dia para me sacanear, me sugere contratar Nicole apenas para um boquete: — Ninguém paga boquete melhor que uma puta — vive dizendo. Eu sempre dou a mesma resposta mal-educada: — Não fode, Roberto! Boquete, trepada, é tudo a mesma coisa. Se pagar por um boquete, perderei, igualmente, minha virgindade mundana. E o que me seduz em Nicole é a possibilidade de penetrar suas coxas. As estonteantes coxas de Nicole. O boquete dela não me interessa em nada.
* * ... |