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Aquele estranho brilho no olho de Maria (Primeiro lugar do Prêmio Cataratas, Contos - Foz do Iguaçu - 2.000) Naquele dia Maria acordou diferente. Normalmente levantava às seis, lavava o rosto e ia para a cozinha. Passava o café, se servia de meio copo e ficava bebericando enquanto preparava o sanduíche de queijo com presunto do marido. Nos últimos tempos trabalho era pouco. Quando os filhos ainda moravam em casa era diferente. Café da manhã para quatro, tirar todo mundo da cama, empurrar para a escola, depois o almoço, a janta... mas agora que os garotos tinham seguido vida, era só o café da manhã de João e nada mais. Normalmente às seis e quinze a mesa já estava pronta, todo santo dia. Mas naquela manhã, Maria acordou diferente. Os olhos abriram às seis, quase por vício, mas vontade de levantar não veio. Veio vontade de dar um empurrão no marido, que ainda roncava ao lado, e ouvir com prazer o baque surdo de seu corpo no chão. Assustada com o estranho desejo, Maria preferiu ficar bem quieta e se achegou mais no canto da cama, enfiando o rosto no vão entre o colchão e a parede. Às seis e quinze João acordou e perguntou se o café estava pronto. Como não viesse resposta, levantou, jogou água na cara e foi até a cozinha. A mesa do café não estava posta. João aparvalhou. Sempre tomava café às seis e quinze, passava os olhos no jornal e às seis e meia já estava saindo para o trabalho. Mas já eram seis e vinte e a mesa do café não estava pronta! Desnorteado, ficou redundando pela cozinha, sem saber que atitude tomar. Até que voltou ao quarto e perguntou se Maria estava doente. Não estava. - Então por que o café não está pronto? São quase seis e meia! Eu sempre tomo café às seis e quinze pras seis e meia já estar saindo pro trabalho! Mas resposta não vinha do lado de Maria e João pôs-se a se vestir, sem interromper a ladainha sobre o café e seu horário matutino. Tanto chateou, que Maria desencravou o rosto do vão entre o colchão e a parede e João pode ver aquele estranho brilho em seu olhar: - Hoje não vou fazer café. Veio em João vontade de brigar, sacudir a mulher até que aquele estranho brilho em seu olhar desaparecesse completamente. Mas se controlou. Afinal, Maria não era sua empregada. Era sua esposa. E esposa perfeita! A casa estava sempre limpa e arrumada, a comida divina, era tratado como um Deus. Lembrava de muito poucas vezes em que seu café tinha atrasado. Teve aquela vez, quando Maria acordou com caxumba, o dia em que a sogra morreu, aquele natal quando ela tomou vinho demais e passou o dia seguinte de ressaca na cama... e só. De resto não havia que reclamar. Maria era uma santa e se não quisesse preparar o café dia ou outro, tinha todo o direito. Podia muito bem ficar dormindo até tarde naquela terça-feira, não tinha mesmo muita coisa para fazer. Se quisesse ficar uma semana inteira dormindo até tarde, tudo bem. Merecia até mais. Feliz com seus pensamentos, João foi para o trabalho, orgulhoso por ser um marido tão compreensivo. Assim que João saiu, Maria levantou e foi passar um café. Na passagem pelo espelho do corredor se pegou com um olhar esquisito, mas achou que era preguiça e seguiu caminho até o fogão. O copo de geléia fumegando de café ficou em sua mão bom tempo enquanto olhava para a parede amarelecida de gordura. Carecia uma demão de tinta. Naquele canto ali já se via um negrume descascado que principiava. Bebericando o café, Maria ficou avaliando a cozinha como se nunca tivesse deitado olhos naquele cômodo onde passara maior parte da vida. Quando o enorme relógio de ponteiros azuis da parede lembrou que já eram duas da tarde, Maria teve um estremecimento. O café no copo de geléia estava gelado e ela não conseguia decidir se estava com fome. Deveria estar, não comera nada desde de manhã. Mas vontade de preparar o almoço não vinha. Um ronco no estômago assegurou que estava com fome: era mesmo preguiça o que estava sentindo. Foi até a geladeira e pegou algumas azeitonas e um pedaço de pizza gelada. Pensou em abrir uma cerveja de João, mas preferiu o resto de um guaraná com semana de geladeira. "E se eu colocasse uma roupa e fosse ao cinema?" Fazia tanto tempo que não assistia uma fita! João era um chato, nunca queria fazer nada. Homem mais sem vontade pra sair de casa! No início ainda era mais animado. Iam a festas, cinema, até no teatro foram uma vez. Mas agora era só a casa, a TV, o café da manhã, o almoço e a janta! Angélica é que tinha razão... Veio vontade de conversar, mas a irmã agora vivia viajando. São Paulo, Porto Alegre, até na Argentina tinha ido por causa do trabalho. Tão difícil se encontrarem. Pior ainda para se entenderem. A irmã é que lhe emprestara o livro do tal Kundera. - Vai te ajudar muito! Como era metida a irmã! Livro ajuda alguém? Angélica estava ficando besta demais. Tão cheia de idéias... Nessa ladainha de pensamentos a tarde sumiu e quando Maria se deu conta, a noite já estava lá fora. Finalmente juntou ânimo, se levantou, tomou um banho e foi preparar a janta. Chegando em casa, noitinha, João teve certeza de que tudo tinha voltado ao normal. A comida estava deliciosa, picadinho, o prato que mais gostava. Ah, não cansava do tempero de Maria! Outros maridos reclamavam, não agüentavam mais comer em casa. Mas com Maria era diferente. Cozinhava cada dia melhor, a danada! Depois da janta, estômago feliz, João ligou a TV e ficou cabeceando na frente da novela das oito. Quando o cansaço venceu ele foi direto para o quarto, zoado de sono, e encontrou Maria deitada no seu lado da cama, abajur ligado, livro na mão. Pediu que ela fosse para seu canto, pois queria dormir, mas aquele estranho brilho no olho de Maria o fulminou novamente: - Hoje durmo desse lado. Mas como? Aquele sempre tinha sido o seu lado na cama, o lado da porta. O outro, encostado na parede, era o de Maria. Fora assim nos quase vinte e cinco anos de casamento! Que idéia era essa agora de querer dormir no seu lado? João tentou argumentar, mas Maria disse que aquele era o melhor lado da cama. Quem dormia ali tinha liberdade de levantar e sair do quarto sem incomodar o outro. Além do mais, ficava perto da única mesinha de cabeceira. Daquele lado podia-se ligar e desligar o abajur com facilidade e, consequentemente, determinar a hora de dormir. Ela tinha ficado vinte e cinco anos espremida entre a parede e João. Para levantar tinha de se esgueirar e se arrastar até o pé da cama para não acordá-lo. Se quisesse acender o abajur tinha de passar por cima do corpo dele para alcançar o interruptor, ou então dar a volta pelo pé da cama, levantar e depois fazer todo o percurso de volta. João tinha dormido vinte e cinco anos no melhor lado da cama. Agora era sua vez. Serena, Maria terminou sua explanação e apagou o abajur. Com a falta de luz, conversa terminou aí. No canto escuro da cama, espremido entre a parede e Maria, João não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Todos os argumentos que não vieram durante a discussão choviam tardiamente em sua cabeça. Tantos que chegou a pensar em dar a volta pelo pé da cama, levantar, acender o abajur e reiniciar o debate. Mas lembrou que era um marido compreensivo e resolveu deixar pra lá. Ia dar muito trabalho levantar do cantinho onde estava aboletado. E, afinal de contas, Maria era uma esposa perfeita, merecia. Deixaria ela dormir algumas semanas no seu lado da cama e tinha certeza de que no final a esposa ia querer voltar para seu cantinho. Quando João acordou na manhã seguinte a mulher ainda dormia. Se espremeu entre ela e a parede, deu a volta pelo pé da cama e finalmente conseguiu ficar em pé sem nenhum esbarrão. Foi direto para a cozinha. A mesa estava posta! Café, ovo mexido, duas torradas, geléia de morango, até um suco de laranja aguardava! - Tá vendo como valeu a pena não começar briga por causa de um nada?, comentou com a geladeira. Maria vale ouro mesmo! Bem que ela podia fazer suco de laranja todo dia. E torradas. Muitas torradas com geléia de morango. Felicidade era isso: torradas com geléia de morango! Mas tanta felicidade assim logo de manhã lhe trouxe uma dúvida. Alguma coisa estava errada. Por que Maria continuava dormindo? Normalmente ficava sentada na mesa até que ele terminasse o café, mesmo que não conversassem nada... bom, melhor era deixar pra lá e ir para o trabalho, que quanto mais estranha, melhor Maria cozinha. Com certeza, à noite encontraria outro jantar maravilhoso! À noite, ao chegar do trabalho, João não encontrou nada, nem mesmo Maria. Às dez e quarenta da noite ela chegou. Disse que tinha ficado sem vontade de fazer janta, resolveu ir ao cinema e comeu umas bobagens pela rua mesmo. Comida não tinha, mas azeitonas, queijo e pão fresquinho era o que não faltava na casa. E foi para o banheiro, que queria tomar banho. João abriu uma cerveja e comeu um sanduíche de queijo enquanto lançava um olhar preocupado para a geladeira: - Mulher quando começa assim só tem um final: chifre na cabeça do marido! E tá pra nascer mulher pra por chifre em mim! João entrou no quarto decidido a acabar com aquela frescura. Mas aquele estranho brilho no olho de Maria o fez perder o rumo. Novamente Maria lia um livro, abajur acesso, no seu lado da cama. Ao ver João entrando, lhe mandou o tal olhar e voltou a cravar os olhos nas páginas do livro como se nada tivesse acontecido. João ficou em pé bons cinco minutos tentando decidir que atitude tomar. Até que Maria colocou o livro de lado e perguntou: - Você já leu alguma coisa do Kundera? João buscou o nome na mente. Kundera? Quem seria? Sem esperar pela resposta, que sabia que não viria, Maria continuou: - Ele fala umas coisas interessantes sobre riso. - Riso?! Do que você tá falando, mulher?!, perguntou João meio irritado. Maria sentiu uma preguiça enorme, mas juntou paciência e explicou: - Kundera diz que o mundo está dividido em dois tipos de pessoas: as que riem e as que não riem. As que riem são flexíveis, criativas, não levam muito a sério política, governantes, casamento, religião. Vivem felizes porque sabem que nada disso é tão importante assim. Já os que não conseguem rir estão sempre infelizes, acreditam na história, na política, levam a sério as ditaduras, a economia, o dinheiro. Kundera diz que se no mundo existissem apenas pessoas que riem, não haveria mais guerras, suicídios, ditaduras, fome... não seria maravilhoso, um ditador discursando e o povo gargalhando das baboseiras que ele diz? - O que você quer dizer com isso?, João perguntou desconfiado. - Nada. É só uma conversa. Há quanto tempo você não dá uma risada, João? - Como assim? - Há quanto tempo nós não sentamos juntos e rimos muito de qualquer coisa? - Bom, eu não tenho ouvido muitas piadas boas ultimamente, disse João meio sem graça. Maria se calou. Lançou um último olhar em direção ao marido e voltou a cravar os olhos no livro. João estava perdido. Quem seria o tal Kundera? E essa história maluca de gente que ri e gente que não ri? Será que a mulher estava ficando louca? Não, aquele estranho brilho em seus olhos não era de loucura. Pelo contrário, aquele brilho tinha uma sanidade que perturbava. Por isso achou que não podia deixar a conversa terminar assim. Não estava gostando nem um pouco daquele repentino ar de superioridade da esposa. Mas dizer o quê?! - Não tenho tempo a perder com essas conversas inúteis!, foi o melhor que conseguiu arranjar. E se deitou no seu novo canto da cama, rosto enfiado entre o colchão e a parede. Maria ainda leu mais algumas páginas do livro até que decidiu que estava na hora de dormir e apagou a luz do abajur. Ao acordar, dia seguinte, João percebeu que Maria não estava mais na cama. Na mesinha de cabeceira avistou o livro e o alcançou. "O livro do riso e do esquecimento", Milan Kundera. Então era ele! Foi até a cozinha com o livro na mão, mas não encontrou Maria. O café estava posto, mas nenhum sinal da mulher. Tomou café e foi para o trabalho decidido a dar um basta naquela situação. - De hoje não passa!, confidenciou à geladeira. À noite, depois de outro jantar maravilhoso, João entrou no quarto determinado: - Maria, nós precisamos ter uma conversa. Maria pôs de lado o livro e o olhou mais uma vez com aquele estranho brilho no olho: - Precisamos mesmo. Eu vou voltar a trabalhar. - Trabalhar?!, estranhou João. - Trabalhar, não sabe o que é? Você faz isso todos os dias. Pelo menos diz que sai de casa pra isso. - Mas eu é que sempre trabalhei nessa casa. Sempre te dei tudo que você precisa. Falta alguma coisa nessa casa? Diz! Falta? - Minha irmã ligou dizendo que na firma dela estão precisando de uma secretária. Eu sei datilografia, já fui secretária, lembra? Só preciso desenferrujar um pouco os dedos e dizem que computador é quase a mesma coisa. Em uma semana fico em forma. Vai ser ótimo voltar a trabalhar. Estou muito feliz. Boa noite, João. Maria colocou o livro na cabeceira e ia desligar o abajur quando João deu um berro desproporcional: - Não encosta a mão nesse interruptor! - Eu quero dormir. - Mas eu ainda não terminei! Ou você acha que pode acabar a conversa desligando o abajur? Maria não pensava nada. Apenas desligou o abajur e virou de lado pra dormir. Naquela noite João não conseguiu pregar o olho. Levantou de seu canto, se espremeu entre a parede e Maria, deu a volta pelo pé da cama e foi para a cozinha conversar com a geladeira. - Amanhã nem vou trabalhar! Resolvo isso de uma vez por todas! Ela quer trabalhar, tudo bem! Mas de hoje em diante não vai ver mais um centavo meu! Vamos ver se esse fricote ainda dura! Só quero ver a cara dela quando ouvir essa! Mas na manhã seguinte, a frase passada e repassada durante a noite e dita com solenidade rara em João não obteve o efeito esperado. Pelo contrário, feliz, Maria lhe deu um beijo no rosto e disse que estava muito contente por ele ser tão compreensivo: - Claro que não vou mais pedir dinheiro a você, querido! Agora vou ganhar o meu. Na saída, Maria ainda lhe mandou um beijo e aquele estranho brilho em seu olhar fulminou João mais uma vez. No boteco, João encontrou Antonio. Tinham crescido juntos, jogaram muita pelada descalços pelas ruas do bairro, namoraram e casaram quase na mesma época, e, em breve, João seguiria o mesmo caminho de Antonio: aposentadoria. Após ouvir as lamúrias, o amigo sentenciou: - Mulher quando começa assim é que arranjou homem por aí! - Não é possível, Antonio. Maria não é disso. Antonio insistiu: - Batata. Mulher quando começa cheia de muda dali, muda de cá, pode estar certo que tem boi na linha. - Eu também pensei isso, Antonio, mas acho que é pior... - Mas o que pode ser pior do que corno nas ventas?, se assustou Antonio. - Não sei... mas aquele estranho brilho no olho de Maria é pior... À noite Maria chegou esfuziante. Há tempos João não via tanta felicidade. O estranho brilho estava mais forte do que nunca. Tinha conseguido o emprego e esbanjava alegria. Disse que ia tomar banho e depois fazia um jantarzinho bem gostoso para os dois. Durante o jantar Maria era só conversa. Queria contar tudo. A entrevista, o novo chefe, a irmã que tinha sido tão legal com ela. João apenas ouvia, cabeça baixa, olhar grudado na comida, que estava mais gostosa do que nunca. Vez em quando ainda tentava encarar a esposa mas encontrava aquele estranho brilho e imediatamente voltava a grudar os olhos no prato. Depois do jantar Maria lavou a louça, disse que queria dormir cedo, tinha trabalho no dia seguinte!, e foi direto pra cama. João não teve coragem de voltar ao quarto. Ficou rondando a casa, sonâmbulo, estômago e cérebro ainda embrulhados pelas cervejas com Antonio. Ficou achando que a noite era uma coisa sem razão. Para que dormir e trabalhar no dia seguinte? Não via mais sentido na rotina idiota de toda sua vida. Dormir e trabalhar, dormir e trabalhar, dormir e trabalhar! E era por causa daquela bobagem que Maria estava fazendo tanto alarde! E aquele estranho brilho no olho da mulher? Tinha idéia de já ter visto aquele brilho antes, mas não conseguia atinar onde nem quando. Somente pressentia que Maria estava iniciando um caminho que ele jamais poderia trilhar. De um momento para o outro sua vida adquiriu um sabor amargo, muito diferente do tempero de Maria que só melhorava. Com a alvorada, veio em João a lembrança dos natais de sua infância. Os primos vinham do interior e dormiam todos amontoados na pequena casa de três quartos do subúrbio. As brincadeiras iam até o dia clarear e eles acabavam dormindo abraçados com os presentes. Mas no dia seguinte, sempre havia o maldito dia seguinte!, ia todo mundo embora, e ele ficava sozinho novamente, na garganta um nó que não conseguia desatar nem explicar para ninguém. Por que tinham de ir embora se era tão bom quando estavam juntos? De que adiantava toda a felicidade da noite de Natal, as brincadeiras e o sono tão pouco, se na manhã seguinte o sol vinha e levava tudo embora? Um largo feixe de sol entrava pela janela, realçando a poeira que boiava no ar, e coloria a sala com uma luz dourada e triste. No subúrbio o sol é sempre triste pela manhã. Esquecido sobre a mesa da sala, João encontrou o livro de Kundera. Abriu o volume de capa colorida e tentou lê-lo. Mas não conseguia ver sentido naquelas palavras impressas lado a lado. Logo largou o livro e lembrou do estranho brilho no olho da mulher. Tentou sorrir mas não conseguiu. Foi até o armário da sala, pegou o revólver e se dirigiu ao quarto. Como que alertada durante o sonho, Maria abriu os olhos ao mesmo tempo em que João entrava no quarto. O estranho brilho em seu olhar tinha sumido e tudo que João podia ver agora era terror e medo: - João, o que você vai fazer com esse revólver? Prazer, um imenso prazer, foi o que João sentiu ao ver que aquele estranho brilho no olho de Maria tinha desaparecido para dar lugar à uma expressão de medo e desamparo. Agora ela não iria a lugar nenhum. Ficaria ali, com ele, para sempre. - João, o que você vai fazer?, perguntou novamente Maria. Olhar firme, João apontou a arma para Maria, que se encolheu aterrorizada. João estava feliz. Tinha vencido. Bastava apertar o gatilho e nunca mais seria obrigado a encarar aquele estranho brilho no olho da mulher. Mas o feixe de sol que também entrava pela janela do quarto desviou sua atenção. Era o mesmo sol das manhãs de natal de sua infância. O mesmo e inútil sol amarelo e quente. Quando se voltou, Maria ainda lhe lançava um olhar assustado. Num átimo João chegou a sentir que o estranho brilho tentava voltar aos olhos de Maria. Não, ele não podia deixar aquele brilho voltar! Tomado por nova disposição, apontou o revólver e apertou o gatilho. O tiro estilhaçou o abajur e o barulho do estampido o assustou: - Maria, você está bem?, perguntou trêmulo. Maria se levantou lentamente, procurando por um veio de sangue a manchar-lhe a camisola branca, mas não encontrou nada. Sorriu: - Eu estou bem, João, disse, feliz, ao mesmo tempo que aquele estranho brilho voltava a seu olhar. João quis levantar o revólver novamente. E dessa vez não iria errar. Mas o feixe de sol invadiu seus olhos, que se encheram de lágrimas, transformando o quarto num enorme borrão dourado. Aos prantos, João se largou no chão feito criança. Maria se levantou e o tomou nos braços, levando-o para a cama: - Minha criança! Nós precisamos conversar, João. Conversar muito. Naquele dia, Maria e João não saíram da cama e conversaram dia inteiro. |