Heloisa

 

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Heloísa Canga Amarela (Menção Honrosa Stanislaw Ponte Preta - 1992)

Todo dia de sol, Heloísa passava frente ao bar, passinho doce, caminho da praia. Cabelos que teimavam de voar, mesmo quando não tinha vento, olhos muito negros contrastando com o dia e a canga amarela mal cobrindo as coxas deliciosas. Tinha os seios mais bonitos de toda Ipanema. Digo isso usando de imaginação, porque ver mesmo, nunca vi. Mas podia imaginá-los por debaixo do sutiã lilás, eretos, afogueados com o calor de Ipanema. Também nem precisava de ver: não existia nada mais bonito no bairro mesmo. Não podia existir.

Dia de praia é dia de festa, o bar todo dizia. É dia de Heloísa e sua canga amarela. Quando chovia era uma sem graceira. Não tinha sol, não tinha Heloísa. O bar inteiro desanimava. Muitos nem vinham, bebia-se muito pouco, o espanhol no caixa sofrendo duplamente. Um desânimo só. Ninguém queria saber de nada, só ler no jornal a previsão do tempo pra saber que dia o sol voltava pra Heloísa poder passar novamente.

Se Deus existisse mandava fazer sol todo dia que é pra Heloísa passar. Se Deus existisse mesmo, era Heloísa.

* *

Heloísa quase não existia de tão linda. Cabelos lisos e negros, pele morena queimada de sol, o corpinho mais suave e mais excitante que já vi. Nunca a conheci bem. Só de ouvir seu "oi" naquela vozinha deliciosa. Aliás, tudo nela é delicioso. Heloísa é uma deusa, de beleza graça sensual, tudo que de doce e excitante existe no mundo. Quem conhece sabe. Heloísa é tudo.

Naquela manhã, como em todas as outras, eu queria e esperava Heloísa passar. Dia de sol, azul, confusão morna no bar. Os outros também esperavam. Mas Heloísa não passava. Preocupei. Doença? Trabalho? Buscar a tia no aeroporto? Mas deuses não ficam doentes, não têm parentes, não precisam trabalhar. Heloísa devia passar! Tinha sol, tinha praia, tinha de ter Heloísa também!

Mas naquele dia ela não passou.

* *

Aí vieram uma porção de outros dias. Muito sol, muita praia, mas Heloísa não passava mais. Preocupei muito. Será que desistiu de colorir o bairro com sua canga amarela? Será que morreu? Deuses não morrem, disse um outro. Se transformam. Em coisas, em estrelas, em outros deuses... Agora, tudo o que eu queria era saber em que Heloísa tinha se transformado. Qual luz transmitia. Só muito depois é que descobri.

Heloísa trocara dia pela noite. Agora os passeios aconteciam a altas horas, madrugada mesmo, sempre noites de estrelas no céu. Descobri por acaso, num porre de final de noite. Estava pálida, sem a beleza do dia, mas era mais bonita ainda, beleza experiente nas coisas da vida e misteriosa como a noite. Também troquei dia pela noite. Heloísa passava sempre de mini-saia branca, linda de corpo, blusa maldosa que deixava ver suas costas nuas. Só em noites mudas Heloísa não passava. Aí o desânimo tomava conta e o bar fechava mais cedo. Mas quando era noite bonita, estrelas no céu, ela sempre vinha confirmar que nada pode ser tão bonito assim. E passava sensual, coxas macias, caminho do mar. Mas nunca voltava. Noite teve que fiquei até o dia clarear e Heloísa não voltou. Tinha pra mim que entrava no mar, dava a volta ao mundo e chegava em casa pelo outro lado. Heloísa era uma deusa muito inteligente.

* *

Depois deixou a noite e não apareceu mais. Voltei ao dia e agora Heloísa tinha virado lavadeira. Passava toda tarde, trouxa na cabeça, roupa suja e roupa limpa, indo e vindo, caminho do mar, mais bonita e útil do que nunca. Roupa que vinha suja suja, voltava limpa e perfumada pelas mãos de Heloísa. Roupa branca, roupa amarela, voltava mais branca mais amarela depois de Heloísa. Todo meu sonho daquela época era vestir roupa lavada por Heloísa.

* *

Um dia, um sujeito resolveu conquistar Heloísa. Todos riram. Como é que alguém pode conquistar Heloísa?! Mas o tipo era decidido, metido mesmo. Disse que ia e foi. Heloísa passou com a trouxa de roupa na cabeça, o sujeito virou a tulipa e saiu atrás. No bar, a gente só olhava os dois, Heloísa firme no caminho, o sujeito circundando, oferecendo e dizendo sabe lá o que. Os dois sumiram, caminho do mar, e nunca mais se ouviu falar dele. Ninguém nunca teve coragem de perguntar. Nem Heloísa ia responder.

* *

Mas foi por aí que tudo se precipitou: me apaixonei e acabei casando. Deixei o bairro, trabalhei e tive filhos. A vida foi e nunca mais vi Heloísa. Muito tempo passou. Agora meus filhos já têm de ganhar seu dinheiro e eu estou velho. Velho e safado, diz minha mulher. Voltei pra mesa do bar e tudo que quero agora é saber em que Heloísa está transformada. Preciso por meus olhos no seu corpo novamente, saber que cor transmite, senão vou definhar. O espanhol não me reconheceu e não tive coragem de perguntar por ela. Todas as mulheres que tive e que amei, nenhuma é como Heloísa. Por isso espero nessa mesa de bar, caminho da praia, final de noite. Preciso encontrar Heloísa. Preciso encontrar Heloísa.

* *

Hoje o dia clareou diferente. O sol está mais amarelo, a espuma do mar mais branca, o ar melhor de respirar. Tenho certeza que vou encontrar Heloísa, alguma coisa me diz. É um dia glorioso hoje. Dessa vez Heloísa vai passar, vai parar e vai tomar essa cerveja comigo. E aí vai me contar tudo.