Geraldo Pereira, um escurinho brasileiro

Home
Up
BlogLog (Novo!)
Literatura
Teatro
Cinema
TV
Prêmios
Na Internet
Fotografia
Consult. e Script-Doc.
Links

Fale com o autor

 

Confira aqui a íntegra da premiada peça teatral de Ricardo Hofstetter: 

 

Este texto foi escrito com o patrocínio das Bolsas RioArte e recebeu o prêmio Shell-RJ de melhor texto para teatro de 2004.

 

Esta é uma obra de ficção baseada na vida e obra do sambista Geraldo Pereira. Assim sendo, muitos fatos e personagens foram rearranjados de forma a se obter maior dramaticidade.

 

Agradecimentos especiais:

Celso Salustiano

Ádua Nise (MIS)

Nélson Sargento

Mocinho

Teresinha de Araújo dos Santos

Márcia Barros

Luis Vieira

Candeias (SOCIMPRO)

Monarco

 

Dedico esta peça a José, meu pai, falecido em junho de 2002 e a meu filho, Victor, nascido em setembro de 2001. Que ambos sejam felizes em suas novas vidas.


 

 

PERSONAGENS:           GERALDO PEREIRA, sambista, negro, alto, forte, bonitão, elegante, brigão e mulherengo.

                                       CIRO MONTEIRO, cantor, amigo e incentivador de GERALDO.

                                       ALUÍSIO DIAS, músico e professor de violão no morro da Mangueira.

                                       BANGUELA, trabalhador da fábrica de ladrilhos, banguela.

                                       CANELA, valente e brigão.

                                       CARLOS CACHAÇA, sambista.

                                       CABO VERDE, estivador, forte e enorme.

                                       CARREGADORES e CEGO, personagens de Anjo Negro.

                                       DELEGADO, delegado de polícia. Gosta de usar expressões e palavras de efeito, porém, as usa fora do sentido correto.

                                       EULÍRIA, mulher oficial de GERALDO.

                                       ISABEL, o grande amor da vida de GERALDO.

                                       MADAME SATÃ, folclórico personagem da Lapa, homossexual barra pesada.

                                       MANÉ ARAÚJO, irmão mais velho de GERALDO.

                                       MOREIRA DA SILVA, o Kid Morengueira.

                                       NAZARÉ, última namorada de GERALDO.

                                       PAI DE ISABEL, bem baixinho, mas uma fera de macho.

                                       PIMENTA, Fernando Pimenta, parceiro e amigo de GERALDO.

                                       SÃO PEDRO, o santo, porteiro do céu.

                                       SEU VENTANIA, pai de EULÍRIA.

                                       TERESINHA E ANTONIA, sobrinhas de GERALDO.

                                       RAUL MORENO, cantor.

                                       POLICIAIS, PRETO VELHO, FALSA BAIANA, BALCONISTA, ENFERMEIRA, GARÇOM, HOMENS, MORENAS, PASTORAS, SAMBISTAS E MÚSICOS.

Obs: quase todos os personagens podem ser dobrados.


 

 

A AÇÃO se passa na cidade do Rio de Janeiro e na portaria de entrada do céu, por volta das décadas de 40 e 50. O cenário da portaria do céu deve ficar num nível superior aos demais cenários e estará sempre visível durante toda a peça e com a presença de SÃO PEDRO nele.

CENA 01

(QUANDO A CORTINA ABRE vemos a portaria do céu. SÃO PEDRO, de terno branco de panamá, gravata, chapéu branco, todo elegante e vestido como um malandro da Lapa dos anos 40 / 50, está sentado numa mesa lendo um livro enorme, assobiando, distraído. Um garotinho brinca no chão do palco lá embaixo. GERALDO PEREIRA chega vestindo um pijama de hospital público da década de 50.)

GERALDO

Salve, gente boa!

SÃO PEDRO

Salve. A que devemos a ilustre visita?

GERALDO

Eu demorei pra entender, mas parece que eu morri, empacotei, estiquei as canelas, abotoei o paletó de madeira... E me mandaram procurar São Pedro. O distinto sabe onde encontro?

SÃO PEDRO

Já encontrou.

GERALDO

Você?! Conta outra.

SÃO PEDRO

Por que não?

GERALDO

São Pedro, que eu saiba, usa camisolão branco e tem uma barba enorme.

SÃO PEDRO

Foto antiga, rapaz, foto antiga. Os tempos são outros. (Se levanta) Sente a beca. (Dá uma desfilada, mostrando a roupa) Ou você acha que só malandro da Lapa pode andar por aí todo maneiro?

GERALDO

(Impressionado)

Maior beca mesmo, hein, Pedrão!

SÃO PEDRO

(Leve tom de inveja)

Isso não é nada. Precisa ver o Filho do Dono. Aquilo é que é beca!

GERALDO

Bom, mas se você é mesmo São Pedro, cheguei, meu santo! O que eu faço agora?

SÃO PEDRO

O primeiro passo é consultar o Livrão. (Volta para sua mesa e abre o livro enorme) Nome?

GERALDO

Geraldo Theodoro Pereira, vulgo Geraldo Pereira.

SÃO PEDRO

Ah, o sambista?

GERALDO

Me conhece?

SÃO PEDRO

(Canta, cheio de bossa, batucando nos dedos da mão)

Baiana, que entra no samba, só fica parada... Você só dança com ele e diz que é sem compromisso...

GERALDO

Bem informado, hein, Pedrão!

SÃO PEDRO

Faz parte do meu trabalho. Vamos ver. (Procura no Livrão) Gabriel, Gabriela, Gaudêncio, Gedeão, Gelásio, Genésio, Genuíno, Gentil, Genoveva, Geraldo,  Geraldo... tá aqui, Geraldo Theodoro Pereira. Vamos ver. (Lendo no Livrão, sem gostar muito) Hum,  hum, huuummm!

GERALDO

(Preocupado)

Alguma coisa pegando aí, Pedrão?

SÃO PEDRO

(Fecha o livro)

Então, seu Geraldo Theodoro Pereira, pra onde acha que devo lhe mandar? Céu, purgatório ou inferno?

GERALDO

Aí depende. Tem samba no céu?

SÃO PEDRO

Isso não importa agora. Preciso saber tua opinião: de acordo com o que você fez lá embaixo, você acha que deve ir pro céu, purgatório ou inferno?

GERALDO

Mas é isso que eu tô falando, Pedrão. Vai depender. Em qual deles tem samba?

SÃO PEDRO

Em todos. Só que no inferno quem puxa o samba é um grupo de paulistas.

GERALDO

Quero ir diretinho pro céu, Pedrão! Pelo amor de Deus!

SÃO PEDRO

E você por acaso faz idéia de como é o céu?

GERALDO

(Meio vidrado)

Ah, o céu deve ser um terreiro de samba jeitosinho, com comida e bebida à vontade, muita escurinha bonita e boa de ginga e, claro, muito samba do bom rolando a noite toda. E uma noite, São Pedro, que não termina nunca!... Sabe o que é isso, meu santo? Uma noite com um samba que nunca termina?...

SÃO PEDRO

Vocês  mortais... querendo sempre o que nunca termina... Ah, se vocês soubessem como a imortalidade é chata! (Tom) Bom, mas não deixa de ser uma boa visão de céu. Mas você acha que merece ir pro céu?

GERALDO

Claro que mereço!

SÃO PEDRO

Prova.

GERALDO

Mas como é que vou provar uma coisa dessas?!

SÃO PEDRO

Isso é contigo.

GERALDO

Mas eu sempre ouvi dizer que o que decide pra onde um sujeito vai é a vida que ele levou lá embaixo.

SÃO PEDRO

Verdade.

GERALDO

Mas então já tá decidido, Pedrão! Minha vida foi uma só, não tem como mudar! E pela sua cara lendo o Livrão aí deu pra sentir que você não gostou muito do que leu...

SÃO PEDRO

Também é verdade. Mas nesses meus dois mil anos de trabalho aqui na portaria do céu aprendi uma coisa: tudo na vida depende do ponto de vista. Dependendo do ponto de vista, até o pior dos canalhas entra no céu.

GERALDO

(Animado)

Então tenho chance, Pedrão?!

SÃO PEDRO

Simpatizei com você, gente fina. Gosto dos teus sambas. É só me dar o ponto de vista certo pra julgar tua vida que carimbo teu passaporte.

GERALDO

(Monocórdico)

Legal! Seguinte: eu nasci no dia vinte e três de abril de 1918, na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Minha mãe se chamava Clementina Maria Theodoro e meu pai Sebastião Maria. Tive mais três irmãos, o mais velho se chamava Manoel Araújo, o Mané Araújo lá do morro de Mangueira. Também tinha o/

SÃO PEDRO

(Corta, enfadado)

Você vai contar a tua vida pra mim?!

GERALDO

Ué, não queria o meu ponto de vista?

SÃO PEDRO

(Leve tom de ameaça)

Quero, mas contando vai ficar chato... pode me influenciar negativamente...

GERALDO

Mas eu faço o quê?

SÃO PEDRO

Você não gostava de teatro? Foi até ator numa peça do Nélson Rodrigues...

GERALDO

Mas nunca fui muito bom nisso, não, meu santo. Meu negócio era samba. Não manjo nada de roteiro de teatro.

SÃO PEDRO

(Aponta para o menino que brinca lá embaixo)

Tá vendo aquele garotinho lá embaixo?

GERALDO

Tô.

SÃO PEDRO

Ele se chama Domingos Oliveira. Logo, logo esse menino vai ser um grande dramaturgo. E ele vai inventar um máxima: um roteiro é igualzinho à vida, só que sem as partes chatas.

GERALDO

Saquei, Pedrão!

SÃO PEDRO

Mas por favor: (Frisa) sem as partes chatas! Que hoje não tô nos meus melhores dias...

GERALDO

Deixa comigo. Mas... que que eu faço agora?...

SÃO PEDRO

Já ouviu falar em flash-back?

GERALDO

Nunca.

SÃO PEDRO

E em black-out?

(SÃO PEDRO faz um gesto e entra um black-out.)

CENA 02

(Barraco de ALUÍSIO DIAS, no morro da Mangueira. Cinco músicos tocam "Com que roupa?", de Noel Rosa, entre eles ALUÍSIO e MANÉ ARAÚJO. GERALDO, entre dezesseis e dezoito anos, chega, meio escondido, e fica assistindo ao ensaio, maravilhado com o que ouve. A música acaba.)

GERALDO

Muito bom esse samba. De quem é?

ALUÍSIO

Noel Rosa.

GERALDO

Vou fazer samba melhor.

ALUÍSIO

Mané, pelo amor de Deus! Naquele pedaço, é fá sustenido menor, você insiste em botar fá sustenido maior!

MANÉ ARAÚJO

Me confundi. Não vou errar mais. Deixa comigo.

GERALDO

Esse fá sustenido tem que ter quantos anos pra ser de maior? Dezoito?

(Todos riem)

ALUÍSIO

Quem é você, garoto?

GERALDO

Geraldo Pereira!

MANÉ ARAÚJO

Meu irmão. Mandei trazer de Juiz de Fora pra ver se dá certo na vida.

ALUÍSIO

Garoto, o que define se um acorde é maior ou menor não é a idade dele e sim sua terça. Se a terça for maior, o acorde é maior, se a terça for menor, o acorde é menor.

GERALDO

E a terça é maior quando tem feriado na segunda-feira?

(Todos riem de novo)

ALUÍSIO

Já vi que vou ter que ensinar música pra esse garoto...

GERALDO

Você ensina música?

MANÉ

O Aluísio já deu aula de violão pra todo mundo aqui no morro da Mangueira, Geraldo. Não tem um bamba que não tenha passado na mão dele.

ALUÍSIO

Você faz o quê, rapaz?

GERALDO

Trabalho na Fábrica de Ladrilho.

ALUÍSIO

Ah, trabalhador o garoto...

MANÉ ARAÚJO

É nada! Isso é um vagabundo de marca maior. Não fosse eu em cima ficava à toa o dia todo.

GERALDO

(Para Aluísio)

Me ensina a tocar violão?

ALUÍSIO

Você tem violão?

GERALDO

Não, (Olhando para MANÉ) mas eu dou um jeito, né, mano?...

MANÉ

Nem olha pra mim! Você já me dá prejuízo demais, Geraldo!

GERALDO

(Para ALUÍSIO)

Quanto custa um violão?

ALUÍSIO

Uns vinte contos.

GERALDO

Eu arranjo. Me dá aula?

ALUÍSIO

Decidido o garoto, hein!

GERALDO

Dá ou não dá?

ALUÍSIO

Claro que dou. Gosto de gente assim: decidida.

GERALDO

Então você vai gostar de mim! Eu vou ser bamba, vou fazer música tão boa quanto essa que vocês tavam tocando aí. Vou cantar samba na Europa toda, até Paris.

ALUÍSIO

E tu sabe onde fica Paris?

GERALDO

Não. Mas quem tem boca... vai à Paris.

MANÉ ARAÚJO

E onde é que você vai arranjar vinte contos de réis pra comprar esse violão, moleque?

(GERALDO faz uma cara de dúvida.)

CENA 03

(Fábrica de Ladrilhos. GERALDO trabalha ao lado de BANGUELA, ambos em frente à máquinas parecidas com tornos.)

BANGUELA

Precisa tomar muito cuidado com essas máquinas. Elas são o diabo.

GERALDO

Diabo por quê, Banguela?

BANGUELA

Não gosto que me chamem de Banguela.

GERALDO

Mas você não é banguela?

BANGUELA

Sou, mas não gosto.

GERALDO

Dá um sorriso.

(BANGUELA sorri, não tem os dois dentes da frente.)

GERALDO

Alá, banguela! Apelido perfeito.

BANGUELA

Mas eu não gosto!

GERALDO

Tá bom, quer que te chame pelo nome, eu te chamo: Afrosínio!

BANGUELA

Tá bom, me chama de Banguela...

GERALDO

Mas qual o problema com as máquinas? Por que a gente precisa tomar cuidado com elas?

BANGUELA

Não soube? Essas desgraçadas comeram dois dedos do Timbau. Dois! O coitado ficou de licença um tempão, até indenização recebeu. Quarenta contos.

GERALDO

(Pensativo)

Quarenta contos por dois dedos?... Então um dedo deve valer uns vinte contos...

BANGUELA

Conversa mais esquisita, Geraldo!

GERALDO

Esquisita nada, isso é matemática, burro! Se o Timbau perdeu dois dedos e ganhou quarenta contos, quer dizer que cada dedo deve valer vinte contos.

BANGUELA

Por que você tá falando isso?

GERALDO

Nada...

(Pequena pausa. GERALDO pensa.)

GERALDO

Qual o dedo que menos serve pra tocar violão, Banguela?

BANGUELA

Sei lá.

GERALDO

(Toca um violão imaginário)

Os da mão esquerda, precisa de todos, pra fazer os acordes.

BANGUELA

A única coisa que eu sei de violão é que o dedão da mão direita serve pra tocar os baixos.

GERALDO

Então: o dedão da mão direita serve pra tocar os baixos. Na mão esquerda precisa de todos. Sobram esses aqui. (Estica os quatro dedos da mão direita, dobrando o dedão) Qual deles não serve pra nada?

BANGUELA

(Estica o indicador da mão direita)

Acho que deve ser esse. Dedo mais desajeitado! Só serve pra apontar os outros na rua.

GERALDO

Será?

BANGUELA

Pra que você acha que serve esse dedo horrível no violão?! Batata!

GERALDO

(Conclui)

Tu tá certo, Banguela!

(GERALDO estica o dedo indicador da mão direita e, lentamente e cheio de medo, vai aproximando-o da máquina, virando o rosto e fechando os olhos. Barulho de dedo triturado e GERALDO dá um berro enorme, abraçando o dedo em seguida.)

CENA 04

(Barraco de ALUÍSIO DIAS. GERALDO entra todo feliz com um violão de madrepérola branco e o dedo indicador da mão direita com um curativo na ponta.)

GERALDO

Consegui o violão, seu Aluísio! Quando é que começam as aulas?

ALUÍSIO

Bonito violão, garoto! Mas o que é isso no seu dedo?

GERALDO

Um machucadinho, nada de mais.

ALUÍSIO

Deixa eu ver.

(ALUÍSIO examina o dedo indicador de GERALDO.)

ALUÍSIO

Mas você perdeu a ponta do dedo, garoto! Como é que vai tocar violão?!

GERALDO

(Estica o dedo enfaixado)

Esse dedo faz falta pra tocar violão?!

ALUÍSIO

Claro! O único dedo que não serve pra nada no violão é esse aqui. (Mostra o dedo mindinho da mão direita)

GERALDO

(Berra, cheio de ódio)

Banguela, seu veado!

CENA 05

(Casa de MANÉ ARAÚJO. GERALDO ouve no rádio algum sucesso do final da década de 30. MANÉ ARAÚJO está limpando sua sanfona de oito baixos. A música no rádio é interrompida por uma vinheta de noticiário extraordinário.)

LOCUTOR DO RÁDIO

E atenção para uma notícia de última hora. Distrito Federal, urgente. O excelentíssimo senhor presidente da República, o senhor Getúlio Vargas, anunciou que a partir de hoje fará cumprir a lei criada por ele mesmo em 1926 que obriga todas as empresas que fazem uso comercial de músicas a pagar direitos autorais aos respectivos compositores. A medida, arbitrária e ditatorial, chocou os meios de comunicação, conforme nos fala agora nosso diretor, o senhor Abravanel Loureiro.

ABRAVANEL LOUREIRO

A medida imposta pelo excelentíssimo presidente da república vai, simplesmente, levar todas as rádios comerciais à falência! Onde já se viu pagar direito autoral para transmitir música através das ondas do rádio?! A música é uma dádiva de Deus, está no ar, como as ondas do rádio. Não pode ser taxada como uma mercadoria qualquer! Essa lenga-lenga de direito autoral é conversa fiada, confusão de comunista querendo subverter a ordem natural das coisas. Por isso, para protestar contra esse ato ditatorial e inconseqüente, todas as rádios emissoras do país, a partir desse momento, entram em greve de protesto por dois dias. Muito obrigado e desculpem-nos o transtorno.

(O som do rádio se transforma num chiado. GERALDO desliga o rádio.)

GERALDO

Viu que notícia boa, mano?

MANÉ ARAÚJO

(Contrariado)

Vi que vamos ficar sem rádio dois dias!

GERALDO

Isso é bom pra gente!

MANÉ ARAÚJO

Por quê?

GERALDO

Porque pagando direitos autorais, nós compositores vamos poder viver das nossas músicas.

MANÉ ARAÚJO

Nós?! Desde quando você é compositor?

GERALDO

Fiz minha primeira música ontem.

MANÉ ARAÚJO

E já se acha compositor?!

GERALDO

A fama vem com o tempo. Por enquanto essa lei do Getúlio é suficiente. Presidente batuta esse, hein? Ainda vou fazer um samba em homenagem a esse sujeito...

(MANÉ ARAÚJO faz uma cara descrente para GERALDO.)

CENA 06

(Terreiro de samba da Unidos da Mangueira. Samba rolando, casais dançando. GERALDO e PIMENTA olham tudo em volta, não estão muito animados. GERALDO já tem vinte e poucos anos.)

GERALDO

(Reclama)

Décimo primeiro lugar, Pimenta! Décimo primeiro lugar! Isso é colocação pra uma escola de samba decente?! A Estação Primeira foi campeã, Pimenta. Campeã!

PIMENTA

Mas no ano passado nós ficamos em quinto!

GERALDO

E a Estação Primeira foi vice-campeã! Outra vez na nossa frente! Sei não, Pimenta, essa Unidos da Mangueira...

PIMENTA

Que isso, Geraldo, vai virar casaca?

GERALDO

Não é questão de virar casaca, Pimenta. Estação Primeira, Unidos da Mangueira, é tudo Mangueira! Mas fazer samba pra ficar em décimo primeiro lugar!... Pelo amor de Deus!

PIMENTA

Então você vai mesmo pra Estação Primeira?

GERALDO

O Carlos Cachaça tá levando todos os bambas da Unidos da Mangueira pra Estação Primeira. Só não veio me buscar porque eu ainda não fiz sucesso. Mas eu tô convencendo o Ciro Monteiro a gravar uns sambas meus.

PIMENTA

(Admirado)

O Ciro Monteiro?! Como é que você conseguiu essa boca, Geraldo?

GERALDO

Tenho minhas mutretas. E o Ciro cantando um samba meu, tenho certeza que estoura! Aí o Carlos Cachaça vem correndo atrás de mim. E você vai comigo pra Estação Primeira, Pimenta!

PIMENTA

Eu?!

GERALDO

Você! Que eu não quero amigo meu em décimo primeiro lugar no carnaval!

(EULÍRIA chega e fica olhando o samba, balançando as cadeiras. Não é uma mulata bonita.)

GERALDO

Olha a bonitona que chegou, Pimenta!

PIMENTA

Que bonitona?! Essa é a Eulíria, filha do seu Ventania.

GERALDO

E daí?

PIMENTA

Pra bonitona falta muito, né, Geraldo?!

GERALDO

Tá vendo mulher melhor que ela nesse samba?

PIMENTA

(Indica uma das mulheres dançando)

A Nicinha.

GERALDO

Tô falando de mulher desacompanhada! Mulher sozinha, tem alguma mais bonita que ela?

PIMENTA

(Olha em volta)

Não.

GERALDO

Então chegou a bonitona! (Tem uma idéia) Peraí, Pimenta, peraí que isso dá samba!

(GERALDO canta "Chegou a bonitona" para EULÍRIA, que fica lisonjeada.)

GERALDO

(Canta)

"Olha só, oh, pessoal que bonitona

Olha o pedaço que acabou de chegar

Agora sim, oh, pessoal, com a chegada dessa dona

O nosso samba tem que melhorar

Temos flauta, cavaquinho, violão

Temos pandeiro para fazer a marcação

Temos espaço no terreiro pra sambar

E uma noite linda de luar

Agora acaba de chegar a bonitona

Requebrando pra lá, se requebrando pra cá

Cadê o moço, cadê o dono dessa dona

Se não tá, vou me atracar"

PIMENTA

Tu é tarado mesmo, hein, Geraldo! A Eulíria bonitona! Pelo amor de Deus!...

GERALDO

Melhor tarado que ficar na mão hoje à noite. (Olhando EULÍRIA, interessado) Eulíria, né?

PIMENTA

Eulíria.

GERALDO

Nome de rima rica. Vou me atracar! (Cheio de bossa, chega em EULÍRIA) Samba bom, hein?

(EULÍRIA apenas olha para GERALDO, fazendo charme.)

GERALDO

Gosta de sambar, irmãzinha?

(Idem.)

GERALDO

Sou sambista da Unidos da Mangueira, sabia? Mas logo, logo o Carlos Cachaça me leva pra Estação Primeira.

(EULÍRIA ri, descrente.)

GERALDO

Tá rindo? É verdade. O Ciro Monteiro tá doido pra gravar um samba meu. Aliás, fiz um samba pra você.

EULÍRIA

(Gosta, mas disfarça)

Pra mim? Nem me conhece...

GERALDO

Como não conheço? Você é a Eulíria, filha do seu Ventania. Quando você sobe o morro, meu coração sobe o morro junto com você...

EULÍRIA

Junto pra onde?

GERALDO

É o que eu queria descobrir... onde mora irmãzinha tão bonita...

EULÍRIA

E o samba?

GERALDO

Que samba?

EULÍRIA

O que fez pra mim.

GERALDO

É lindo! Fiz em dó menor, que é pra ver se um dia você tem dó de mim e me dá um sorriso.

(EULÍRIA sorri, lisonjeada)

GERALDO

Então, quer ouvir o samba?

(EULÍRIA faz que sim com a cabeça)

GERALDO

Então vem!

(GERALDO sai puxando EULÍRIA pela mão e pisca para PIMENTA, que balança a cabeça negativamente.)

CENA 07

(Casa de MANÉ ARAÚJO. EULÍRIA está num canto de cabeça baixa. GERALDO, sentado num banco. MANÉ ARAÚJO e SEU VENTANIA em frente a GERALDO.)

MANÉ ARAÚJO

Vai casar, sim!

GERALDO

Mas eu não fiz nada, mano!

SEU VENTANIA

E por acaso foi o Espírito Santo que engravidou a minha Eulíria?!

GERALDO

Eu nem conheço esse tal de Espírito Santo...

MANÉ ARAÚJO

Pára de brincar, Geraldo! Você esteve ou não esteve com a Eulíria?

GERALDO

Ela é mais velha do que eu, mano!

SEU VENTANIA

E daí, mulher mais velha também engravida!

MANÉ ARAÚJO

Então, Geraldo, esteve ou não esteve com a Eulíria?

GERALDO

Tive. Mas foi só uma vez!

MANÉ ARAÚJO

Estamos conversados, seu Ventania. Pode ficar descansado que o Geraldo casa!

GERALDO

(Se levanta)

Mas, mano/

MANÉ ARAÚJO

(Empurra GERALDO, obrigando-o a se sentar, falando para SEU VENTANIA e EULÍRIA)

Vocês podem ficar tranqüilos que o Geraldo casa!

SEU VENTANIA

Eu sabia que podia confiar no senhor, seu Mané Araújo! Eulíria, vamos!

(GERALDO olha com ódio para EULÍRIA, que sai com SEU VENTANIA.)

GERALDO

Mano, casar agora vai atrapalhar a minha carreira!

MANÉ ARAÚJO

Carreira de quê, desgramado?

GERALDO

De sambista! Eu vou ser bamba aqui na Mangueira!

MANÉ ARAÚJO

Você vai é ser pai! E pai tem que sustentar o filho e a mulher! Já falei com o Aluísio. Ele vai te arranjar um emprego de motorista de caminhão de lixo na prefeitura.

GERALDO

Motorista de caminhão de lixo?! Mas eu/

MANÉ ARAÚJO

(Corta GERALDO)

E trata de levar esse emprego a sério que é ele que vai te sustentar. Samba não enche barriga de ninguém!

(MANÉ sai rapidamente. GERALDO fica irado.)

CENA 08

(Terreiro de samba na Mangueira. Samba rolando. PIMENTA por ali. GERALDO chega, na maior beca e todo animado.)

PIMENTA

(Estranha)

Tu não casou hoje, Geraldo?!

GERALDO

Nem me lembra.

PIMENTA

Não devia estar na noite de núpcias?

GERALDO

Isso é pra quem casou.

PIMENTA

E você não casou?

GERALDO

Casei mas não casei.

PIMENTA

Casou ou não casou?

GERALDO

Casei só no papel. Na alma ainda sou solteiro.

PIMENTA

E cadê tua mulher, Geraldo?

(Uma morena linda está sambando perto deles. GERALDO de olho nela.)

GERALDO

(Indica a morena)

Tá sambando ali. Linda!...

PIMENTA

Quem é essa, Geraldo?

GERALDO

Não sei. Mas o meu coração já é dela...

PIMENTA

Vai pra casa, Geraldo, é tua noite de núpcias! A Eulíria tá te esperando.

GERALDO

E perder esse samba bom?! De jeito nenhum! (Tem uma idéia) Aliás, peraí, Pimenta, peraí que isso dá samba!

(GERALDO canta "Que samba bom", enquanto paquera a morena, que corresponde.)

GERALDO

(Canta)

"Ai, que samba bom

Ai, que coisa louca

Eu também estou aí, estou aí, o que é que há?

Também estou nesta boca.

Muita bebida, mulher sobrando

Tem até trouxa neste samba se arrumando

Eu neste samba, vou me acabar

Num samba desses vale a pena a gente entrar"

(Chega um HOMEM.)

HOMEM

Êh, o que que tá acontecendo aqui?!

GERALDO

Por que o distinto quer saber?

HOMEM

(Invocado, indica a morena)

Porque ela tá comigo!

GERALDO

(Descrente)

Com você?! Um mulherão desses ia perder tempo com um trouxa como você?! Vai dar uma volta, vai, amigo.

HOMEM

Vamos ver quem vai dar uma volta!

(O HOMEM começa a tirar o paletó, se preparando para brigar. Mas enquanto ainda está com as mãos na manga, já leva um soco no queixo de GERALDO. O HOMEM cai no chão desmaiado. PIMENTA corre pra acudir o sujeito.)

PIMENTA

Ficou maluco, Geraldo?!

GERALDO

Ele é que tava doido achando que ia ficar com uma morena dessas. Vem, minha nega!

(GERALDO puxa a morena, que sai com ele. PIMENTA tenta fazer o HOMEM acordar. O HOMEM acorda, meio tonto, se levanta de um pulo, em postura de lutador.)

HOMEM

Pode vir que aqui tem homem! Pode vir que aqui tem homem! (Se toca que GERALDO já saiu) Ué, cadê o homem?!...

(PIMENTA ri discretamente.)

CENA 09

(Terreiro em Mangueira. Alguns músicos se preparam para começar a tocar, entre eles PIMENTA. )

MÚSICO

Quer dizer que o Geraldo brigou de novo no samba, é?

PIMENTA

O coitado do sujeito não teve tempo nem de tirar o paletó. Foi um soco só. E tchibum, caiu desmaiado.

MÚSICO

Como é a vida, né? Você tá num samba, tranqüilão. De repente leva um soco no queixo e quando acorda roubaram a tua mulher.

PIMENTA

Dependendo da mulher até vale a pena!

(Eles riem.)

PIMENTA

Mas a morena que o Geraldo roubou do sujeito era coisa fina. O cara deve estar arrasado. Morenaço!

(GERALDO entra, apressado e nervoso.)

GERALDO

Gente, vocês precisam me ajudar! Pelo amor de Deus! O Ciro Monteiro tá subindo o morro!

PIMENTA

Tu roubou a mulher do Ciro Monteiro também, Geraldo?!

GERALDO

Claro que não, Pimenta! Ele veio escutar uns sambas meus. Se gostar, vai gravar!

PIMENTA

E o que você quer que a gente faça?

GERALDO

Me ajuda a cantar os sambas, que você sabe que a minha voz não é lá essas coisas.

PIMENTA

Deixa com a gente, Geraldo.

GERALDO

Mas olha lá, hein, rapaziada! Não vão dar uma de morto de fome pra cima do Ciro Monteiro! Eu botei a maior banca que era o bamba aqui da Mangueira e que tava por cima da carne seca! Banca, hein!

TODOS

Deixa com a gente.

(CIRO MONTEIRO entra.)

CIRO

Salve, rapaziada!

(Todos, exceto GERALDO, correm pra cima de CIRO, bajulando-o, só faltam lamber seus sapatos.)

TODOS

Seu Ciro, que prazer! Senta aqui. Toma cerveja ou cachaça? Adoro a sua voz, seu Ciro! É o maior cantor brasileiro da atualidade! Que bom ver o senhor aqui! Senta desse lado que aqui é mais fresquinho...

GERALDO

(Berra)

Cambada!

(Eles se tocam e assumem seus lugares.)

GERALDO

Desculpa, Ciro, essa rapaziada não tá acostumada com gente famosa.

CIRO

Então, Geraldo, cadê os sambas?

GERALDO

(Nervoso)

Qual você quer ouvir?

CIRO

Não sei, o que você tem pronto?

GERALDO

(Muito rapidamente e excitado)

Tem um sobre um malandro que bate na mulher de outro malandro e o primeiro malandro vem tomar satisfação, tem a da cabrocha que vai pro samba sem o malandro saber, tem a da falta de sorte, a da contrariedade, a que ela não teve paciência, a do adeus, das saudades, do/

CIRO

(Corta)

Compositor fecundo, você, hein! Faz o seguinte: canta a que você gosta mais!

GERALDO

Tá bom. Vamos lá, negada: Acabou a sopa!

(Acompanhado pelos músicos, GERALDO canta "Acabou a sopa". CIRO escuta seriamente, sem esboçar nenhuma reação.)

GERALDO

(Canta)

"Essa não é a primeira vez

Que você me aborrece

E depois com cara de santa

Me aparece, pedindo perdão

Sem me pedir foi ao baile

E isso não se faz

Eu vou lhe mandar embora

Para nunca mais

Pode arrumar sua trouxa

Porque acabou a sopa

Volte ao baile

Vá dançar melhor

Abusou da confiança

Você já não é mais criança

Se eu lhe perdoar

Fará depois pior"

GERALDO

(Inseguro)

E aí, gostou?

(CIRO fica sério um tempo. Todos angustiados.)

CIRO

É muito bom o samba! Tá gravado!

(Eles vibram. CIRO vai saindo.)

CIRO

Me manda a letra e a partitura que amanhã mesmo eu entro em estúdio pra gravar!

GERALDO

Pode deixar, muito obrigado, seu Ciro. Não quer ouvir mais um?

(Mas CIRO já foi.)

PIMENTA

Aí, Geraldo, samba gravado pelo Ciro Monteiro!

GERALDO

Pimenta, fiquei cabreiro com uma coisa.

PIMENTA

O quê?

GERALDO

O Ciro disse que eu sou um compositor fecundo. Ele tava me elogiando ou ofendendo?

PIMENTA

Fecundo é um sujeito muito criativo, que produz em abundância.

GERALDO

(Anota a palavra num papel)

Gostei, fe-cun-do! Ainda vou usar essa palavra num samba. A rima é rica!

(Eles riem.)

CENA 10

(GERALDO dedilha uns acordes em seu violão. PIMENTA a seu lado.)

GERALDO

Não vejo a hora de descer o morro e ganhar essa cidade maravilhosa, Pimenta.

PIMENTA

Você quer sair aqui da Mangueira?

GERALDO

Claro, Pimenta. Compositor tem que viver lá embaixo, perto das rádios, das gafieiras, dos cantores.

PIMENTA

E por que não foi ainda?

GERALDO

Faltam os cobres. A vida lá embaixo é cara e o que entra das minhas músicas ainda é pouco. Mas logo, logo eu consigo.

PIMENTA

E você não vai sentir saudades aqui da Mangueira?

GERALDO

Vou morrer de saudades. Esse morro é o meu santuário, Pimenta. Mangueira! Foi aqui que eu conheci o samba. E não tem nada mais importante no mundo que samba!

(GERALDO, ao violão, canta "Ai, que saudades dela".)

GERALDO

(Canta)

"Quando bate a Ave-Maria

Lá no alto da Capela

Ai, ai, que saudades dela

Ai, ai, que saudades dela

Me afagava dia e noite

Sempre carinhosa e bela

Ai, ai, que saudades dela

Ai, ai, que saudades dela

O meu santuário

Era um caramanchão

Ela era minha santa

E o meu samba-oração

Mas um dia por maldade

Ela quis abandonar

A voz do meu violão

E o meu cantar"

GERALDO

(Espantando a tristeza)

Mas a gente precisa evoluir, Pimenta, andar pra frente! E a frente, pra quem é de samba, infelizmente, é lá embaixo!

(CARLOS CACHAÇA chega neles.)

CARLOS CACHAÇA

Salve, Geraldo.

GERALDO

Mas olha se não é o grande Carlos Cachaça! (Pisca discretamente para PIMENTA)

CARLOS CACHAÇA

Como vai a Unidos da Mangueira?

GERALDO

(Mente)

Muito bem.

CARLOS CACHAÇA

Décimo primeiro lugar é muito bem pra você?!

GERALDO

Foi uma fatalidade. Mas os compositores daqui são de qualidade.

CARLOS CACHAÇA

Eram.

GERALDO

Eram?

CARLOS CACHAÇA

O Cartola já está na Estação Primeira. O Aluísio também. O Nelson também já levei. Só falta você.

GERALDO

E o que eu ganho indo pra Estação Primeira?

CARLOS CACHAÇA

Lugar de destaque na ala dos compositores da escola que vai ser a maior e mais querida dessa cidade, a Estação Primeira de Mangueira. E a Unidos da Mangueira, cá entre nós, não dura muito, não... Então, o que me diz?

GERALDO

Aceito com uma condição.

CARLOS CACHAÇA

Qual?

GERALDO

O Pimenta aqui vai também.

CARLOS CACHAÇA

Fechado.

(Eles apertam as mãos.)

CARLOS CACHAÇA

Salve a Estação Primeira de Mangueira!

(Os três cantam "Samba pro concurso".)

GERALDO, PIMENTA E CARLOS CACHAÇA

(Cantam)

"Mangueira este ano está infernal

O ensaio geral

Eu fui lá e vi, meu bem

Lindas pastoras

Lindos sambas de harmonia

E uma forte bateria

Que não respeita ninguém

Foi ensaiado

O samba pro concurso

Depois o mestre-sala

Dançou com a porta-bandeira

Tive a recordação da Praça Onze

Na sede da Estação Primeira"

CENA 11

(Calçada da Fome. GERALDO vem caminhando com PIMENTA.)

PIMENTA

Chegamos.

GERALDO

Como é que você disse que chamam essa rua, Pimenta?

PIMENTA

O nome dessa rua é uma homenagem à Calçada da Fama, que fica lá em Hollywood. Só que como aqui só tem esfomeado, chamam de Calçada da Fome.

GERALDO

Mas quem é que tá esfomeado aqui?

PIMENTA

Você.

GERALDO

Também não tô tão ruim assim, Pimenta! Tô passando por uns apertos financeiros, mas daí a esfomeado tá longe! Pra que tu me trouxe aqui?

PIMENTA

Pra tu vender uns sambas, levantar uma grana e pagar o aluguel do teu sobrado lá na Lapa, que eu sei que tá atrasado.

GERALDO

Vender um samba meu?!...

PIMENTA

Que que tem? Todo mundo vende samba.

GERALDO

Mas se o samba fizer sucesso ninguém vai saber que é meu.

PIMENTA

O público não vai saber mesmo. Mas entre os sambistas todo mundo sabe. E se você vender um samba pra esse meu amigo tu tá feito.

GERALDO

Quem é esse teu amigo?

(MOREIRA DA SILVA, todo malandrão e na maior beca, entra.)

MOREIRA DA SILVA

Salve mocidade!

PIMENTA

Salve Kid Morengueira!

MOREIRA DA SILVA

Meu querido Pimenta!

(MOREIRA DA SILVA e PIMENTA se abraçam.)

PIMENTA

Sempre em forma, hein, Morengueira! Fazendo muito sexo?

MOREIRA DA SILVA

Quase todo dia. Quase na segunda-feira, quase na terça, quase na quarta...

(Eles riem.)

PIMENTA

Quero te apresentar: Geraldo Pereira, Moreira da Silva.

(Eles apertam as mãos.)

MOREIRA DA SILVA

Então esse é o negão que promete?

GERALDO

Prometo e cumpro!

MOREIRA DA SILVA

Tamanho ele tem! Vamos sentar e tomar um goró.

(Eles se sentam na mesa de um bar.)

PIMENTA

(Para o garção)

Uma cerveja!

GERALDO

(Idem)

Uma cachaça!

MOREIRA DA SILVA

(Idem)

Um copo de leite! On the rocks!

GERALDO

Copo de leite?! O rei da malandragem?!...

MOREIRA DA SILVA

Malandragem aqui é pra inglês ver. Mas vamos ao que interessa. Gravo um disco semana que vem e preciso de um último samba, que a minha criatividade se acabou, tirou férias, fugiu com a mulher do vizinho... Tens alguma coisa pronta aí?

GERALDO

Claro que tenho, sou um sambista... fecundo!

(GERALDO e PIMENTA riem.)

MOREIRA DA SILVA

Tá, mas samba fecundo eu não quero, não, quero um samba que dê breque.

GERALDO

Bom, tem um que a história é a tua cara. Um cara bate na nega do malandro na subida do morro. Deixa a nega quase nua, no meio da rua ela quase que vira presunto, o malandro não gosta do assunto e resolve mandar o cara pra cidade de pé junto, transformá-lo num defunto, entende?...

PIMENTA

(Não gosta da idéia)

Que idéia, Geraldo!

MOREIRA DA SILVA

Gostei!

PIMENTA

(Conserta)

Que idéia genial, Geraldo!

MOREIRA DA SILVA

Negócio fechado. Quando é que me entrega o samba?

GERALDO

Pagas quanto?

MOREIRA DA SILVA

Preço de mercado. Um conto e trezentos.

GERALDO

Tudo isso?!

MOREIRA DA SILVA

Se acha muito posso pagar menos.

GERALDO

(Disfarça)

Não, acho até barato...  Não vão saber que o samba é meu...

MOREIRA DA SILVA

Tu ainda é novo nesse negócio, garoto. Vender música é a coisa mais normal do mundo.

GERALDO

E precisa colocar muito breque no samba?

MOREIRA DA SILVA

Me entrega o samba e deixa os breques comigo. Ou você acha que o rei do samba de breque precisa de alguém pra pôr breque nos sambas dele?

GERALDO

E você vai gravar mesmo?

CENA 12

(Estúdio de gravação. MOREIRA DA SILVA grava "Na subida do morro".)

MOREIRA DA SILVA

(Canta)

"Na subida do morro me contaram

Que você bateu na minha nega

Isso não é direito

Mexer com uma mulher que não é sua

Deixou a nega quase nua

No meio da rua

A nega quase que virou presunto

Eu não gostei daquele assunto

Hoje venho resolvido

Vou lhe mandar para a cidade de pé junto

Vou lhe tornar em um defunto

Você mesmo sabe

Que eu já fui um malandro malvado

Somente estou regenerado

Cheio de malícia

Dei trabalho à polícia pra cachorro

Dei até no dono do morro

Mas nunca abusei

De uma mulher que fosse de um amigo

Agora me zanguei consigo

Hoje venho todo animado

A lhe deixar todo cortado

Vou dar-lhe um castigo:

Meto-lhe o aço no abdômen

E arranco fora o seu umbigo

Aí meti-lhe o aço. Quando ele ia caindo disse:

— Morengueira, você me feriu!

Eu disse:

— É claro, você me desrespeitou, mexeu com a minha nega. Você sabe que em casa de vagabundo, malandro não pede emprego. Eu quero é ver gordura, que a banha está cara.

Aí meti a mão na luana, saquei da peixeira, peguei o Bargulino pelo duodeno, vesícula biliar e fiz-lhe uma tubagem. Ele caiu, bum, todo ensangüentado. E as senhoras e senhoritas como sempre nervosas:

— Meu Deus! Esse homem morre, moço, coitado! Olha aí está se esvaindo em sangue.

Então, veio aquela baba de quiabo. Minha senhora, dá-lhe um óleo canforado, penicilina, estreptomicina, crebiose, hidrasina. É, mas o malandro já estava frio, estava na horizontal. Agora malandro que é malandro não denuncia o outro. Espera pra tirar a forra. Então, diz o malandro:

Vocês não se afobem

Que o homem, dessa vez, não vai morrer

Se ele voltar dou pra valer

Vocês botem terra nesse sangue, não é guerra,

É brincadeira, vou desguiando na carreira

A justa já vem e vocês digam que eu estou me aprontando

Enquanto eu vou me desguiando vocês vão ao distrito

Ao delerusca, se desculpando:

Foi um malandro apaixonado que acabou se suicidando"

CENA 13

(Terreiro do samba. GERALDO, num canto, ouve o finalzinho da música anterior num rádio.)

VOZ NO RÁDIO

(Off)

Esse foi o rei da malandragem, Moreira da Silva, e o samba de sua autoria "Na subida do morro".

(GERALDO desliga o rádio, chateado. PIMENTA chega nele.)

PIMENTA

Mas olha quem tá por aqui! Geraldo Pereira, o rei da Lapa! O que tá fazendo no morro, meu irmãozinho?

GERALDO

Salve, Pimenta.

(Eles se abraçam.)

GERALDO

Marquei com o Ciro Monteiro aqui, pra matar as saudades do morro. Essa Mangueira tem um mistério, a gente não consegue ficar muito tempo longe daqui, não...

PIMENTA

Quer dizer que agora você tá assim com o Ciro Monteiro! Unha e carne!

(Chega a rapaziada do samba, músicos etc. Eles começam a tocar.)

GERALDO

É, mas não é só o Ciro, não, tem muito cantor bom gravando samba meu. O Roberto Paiva, o Francisco Carlos, o Blecaute...

PIMENTA

Então você deve tá montado na grana!

GERALDO

Esse é que é o problema. Todo mundo grava samba meu, mas dinheiro de direito autoral que é bom não vejo quase nada... Acho que a boa é ser cantor, Pimenta, eles que entram na grana, compositor só fica com as sobras...

PIMENTA

É por isso essa tua cara de enterro?

GERALDO

Por isso e porque acabei de ouvir "Na subida do morro" no rádio. (Irônico) Música composta por Moreira da Silva!

PIMENTA

Mas bem que você gostou do conto e trezentos que ganhou. Foi com essa grana que você botou teu aluguel em dia. Toca pra frente que de onde veio esse vem muito mais.

GERALDO

(Se anima um pouco)

Você tá certo, Pimenta: de onde veio esse, vem muito mais! Olha quem tá chegando ali!

(CIRO MONTEIRO entra.)

CIRO

Salve, rapaziada! Como é que tá esse samba?

GERALDO

O samba da Mangueira é sempre bom. Eu quero saber é das cabrochas, Pimenta!

PIMENTA

Sambando cada vez mais gostoso.

(Chega uma mulher toda metida. GERALDO, já de olho grande nela.)

GERALDO

Falando em cabrocha, olha a peça que acabou de chegar! Vou me atracar! (Vai até a cabrocha) Nova no pedaço, irmãzinha?

FALSA BAIANA

Cheguei ontem da Bahia.

PIMENTA

Ah, é baiana, é?

FALSA BAIANA

De São Salvador.

GERALDO

É verdade que quando uma baiana entra no samba todo mundo bate palma e abrem a roda gritando "Salve a Bahia, meu senhor"?

FALSA BAIANA

Verdade da mais verdadeira.

GERALDO

Pois então mostra o samba da Bahia pra gente ver, minha irmãzinha, que se você for boa mesmo faço um samba em tua homenagem.

FALSA BAIANA

Pois tá feito o samba.

(A FALSA BAIANA, toda convencida, entra na roda, mas samba muito mal. Todos olham meio de lado pra ela.)

GERALDO

Pimenta, se isso aí é baiana de verdade, não me leva pra Bahia jamais!

CIRO

Isso não é baiana nem aqui nem na Conchinchina!

GERALDO

É uma falsa baiana! (Tem uma idéia) Isso dá samba, gente!

PIMENTA

(Descrente)

Samba, Geraldo?!

(GERALDO entra na roda e canta "Falsa baiana". A FALSA BAIANA não gosta do que ouve.)

GERALDO

(Canta)

"Baiana que entra no samba e só fica parada

Não samba, não dança, não bole nem nada

Não sabe deixar a mocidade louca

Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira

Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras

Deixando a moçada com água na boca

A falsa baiana quando entra no samba

Ninguém se incomoda, ninguém bate palma

Ninguém abre a roda, ninguém grita ôba

Salve a Bahia, senhor

Mas a gente gosta quando uma baiana

Samba direitinho, de cima embaixo

Revira os olhinhos dizendo

Eu sou filha de São Salvador"

(A FALSA BAIANA chega perto de GERALDO.)

GERALDO

Não falei que fazia um samba pra você, irmãzinha? Gostou?

(A FALSA BAIANA, cheia de ódio, dá um tapa na cara de GERALDO e sai rapidamente de cena. GERALDO fica com a mão no queixo, reclamando de dor.)

CIRO

Gostei do samba, Geraldo. Posso gravar?

(GERALDO pensa.)

CIRO

Ih, que isso, Geraldo?! Tá fazendo charme pra cima de mim agora, é?

GERALDO

(Sem graça)

Claro que não, Ciro. O samba é teu. Pode gravar.

CIRO

Esse samba vai ser um estouro! Falsa baiana! Demais! Vou pegar umas bebidas pra comemorar. Quem vai?

GERALDO E PIMENTA

Eu!

(CIRO sai. Um homem chega em PIMENTA e GERALDO.)

HOMEM

Que baiana, hein!

PIMENTA

Baiana de Caxias!

(Eles riem.)

HOMEM

É, de samba ela não manja nada. Mas de boxe! O Geraldo levou o maior cruzado de direita no queixo!

(Eles riem, exceto GERALDO, que não gosta da piada.)

GERALDO

E o que que você tem a ver com isso?!

(GERALDO parte pra cima do músico e o pau come. Outro homem vem defender o amigo, PIMENTA entra pra defender GERALDO e vira uma pancadaria generalizada.)

VOZ DE HOMEM

(Off)

Olha a polícia!

(Rapidamente a galera dispersa, ficando apenas GERALDO, PIMENTA e o MÚSICO. Dois POLICIAIS entram.)

POLICIAL 1

Samba é coisa de marginal, mesmo.

POLICIAL 2

Termina sempre em pancadaria.

POLICIAL 1

Vambora, todo mundo pra delegacia!

(Os dois POLICIAIS vão levando GERALDO, PIMENTA e o MÚSICO.)

GERALDO, PIMENTA E O MÚSICO

Peraí, gente boa, vamos conversar. Foi só uma discussão entre amigos. Nem sangue saiu!

(Os policiais não querem saber de papo e os levam. CIRO entra com três bebidas na mão.)

CIRO

Ué, cadê todo mundo?!...

CENA 14

(Delegacia. GERALDO, PIMENTA e o MÚSICO diante do DELEGADO.)

DELEGADO

Qual foi a ocorrência acontecida com os distintos?

POLICIAL 2

Briga no morro da Mangueira, seu delegado. Só deu pra prender esses três. O resto fugiu.

DELEGADO

Outra vez briga na Mangueira! Será que vocês não sabem fazer outra coisa a não ser brigar? É toda hora confusão, briga, arruaça... ninguém tem respeito humano pela ordem social naquele morro,  não?!

GERALDO

(À parte, para PIMENTA)

Respeito humano pela ordem social?!...

(PIMENTA segura o riso e cutuca GERALDO, pra ele ficar quieto.)

DELEGADO

Qualquer dia proíbo samba na Mangueira!

GERALDO

Não faça uma coisa dessas, seu delegado. Se o samba acaba, a vida da gente perde a graça.

DELEGADO

E vocês acham graça em ficar encharcando a cara pra estapear uns aos outros, depredando propriedades particulares alheias e perturbando a ordem pública, social e privada!

GERALDO

Privada lá no morro não tem, não, doutor. O pessoal faz na fossa, mesmo...

(Os três tentam prender o riso, mas não conseguem e caem na gargalhada. O DELEGADO fica fulo.)

DELEGADO

(Dá um soco na mesa)

Silêncio! Vocês estão pensando que estão aonde? Isso aqui não é o morro, não! Delegacia é um lugar que exige consideração constitucional, vocês estão me entendendo?!

(Os três prendem o riso. O POLICIAL 1 entra.)

POLICIAL 1

Licença, seu delegado. Tem um moço aí fora querendo falar com o senhor.

DELEGADO

Você não está vendo que eu estou ocupado dando uma lição de comportamento educacional a esses meliantes?!

POLICIAL 1

Mas é o seu Ciro Monteiro.

DELEGADO

(Deslumbrado)

Ciro Monteiro?! O cantor do rádio?!

POLICIAL 1

Ele mesmo.

DELEGADO

Manda entrar agora!

(O POLICIAL 1 sai.)

DELEGADO

Estão vendo o nível da minha delegacia? Até artista freqüenta o local em questão! Eu vou receber a ilustre visita e vocês tratem de ficar calados, pra não constranger o senhor Ciro Monteiro.

(CIRO entra. Eles seguram o riso.)

CIRO

Com licença.

DELEGADO

Seu Ciro Monteiro, que prazer recebê-lo na minha simplista delegacia! A minha patroa é a primeira fã número um do senhor. O senhor se importaria de assinar num papel um autógrafo pra ela?

CIRO

Claro que não, vai ser um prazer. (Já pegando papel e caneta) Mas vou precisar de um favorzinho em troca.

DELEGADO

O que o senhor quiser. O nome dela é Anastácia. Nessa delegacia o senhor manda.

CIRO

Eu queria que o senhor quebrasse o galho e soltasse os meus amigos aqui.

DELEGADO

O senhor é amigo dessa... gentalha?!...

CIRO

São todos trabalhadores, seu delegado. E garanto que não foram eles os causadores da briga. Estavam no samba a meu convite. Acabaram se envolvendo na confusão, mas são gente de respeito. Então, posso contar com a sua boa vontade?

DELEGADO

(Sem graça)

Um pedido seu é uma ordem, seu Ciro Monteiro...

CIRO

Ah, ótimo! (Assina o autógrafo e entrega ao DELEGADO) Muito obrigado!

(Eles vão saindo.)

GERALDO

Obrigado, seu delegado. E muito cuidado com o respeito humano pela ordem social!

(Eles saem rindo. O DELEGADO fica com cara de bobo.)

CENA 15

(Av. Rio Branco. Carnaval. GERALDO vem puxando e regendo uma bandinha composta por um tarol e dois instrumentos de sopro, daquelas só pra gerar direito autoral. Algumas pessoas em volta, dançando e cantando "Tribo do Caramuru" e "Olha o pau peroba". PIMENTA e CIRO chegam, ficam assistindo, rindo e balançando a cabeça negativamente.)

TODOS

(Cantam)

"Na tribo dos Aymorés

Todo mundo usa pena

Até o pajé

Mas na tribo dos Caramurus

A ordem é essa:

Todo mundo nu!

O homem era fogo

Mas topava o nudismo

Já aderiu ao existencialismo

Naquele tempo, seu Caramuru

Dava esta ordem:

Todo mundo nu!

 

Olha o pau, olha o pau

Olha o pau, olha o pau

Pau, pau-peroba

Olha o pau que matou a cobra

Olha o pau que matou a cobra

Salve pau-peroba

Que mostrou que é bamba

Que matou a cobra

Que surgiu no samba”

CIRO

Geraldo, que músicas ridículas são essas?!

GERALDO

Ciro, meu amigo, a barra tá pesada, tô fazendo de tudo pra garantir uns trocados!

PIMENTA

Mas pau-peroba é demais! Foi você que compôs isso?

GERALDO

Demais é a minha dureza, Pimenta. Pra levantar uns trocados componho qualquer coisa. Ciro, será que você não tem algum pra adiantar pro seu amigo? Tô a zero... E passar o carnaval a zero é que nem ir a Roma e não ver o Papa.

CIRO

Você manda!

(CIRO tira várias notas do bolso, conta, GERALDO olha com cara feia, de brincadeira, CIRO coloca mais algumas notas no bolo.)

GERALDO

Agora sim!

(CIRO entrega o dinheiro a GERALDO. Eles se abraçam.)

 

CIRO

Vê lá o que você vai fazer com essa grana, hein! Não vai se meter em confusão!

GERALDO

E desde quando mulher é confusão?

PIMENTA

Desde que você tá no meio!

(Eles riem.)

PIMENTA

E essa bandinha aí é pra quê, Geraldo? Viraste maestro?

GERALDO

Isso pra fazer fita pros homens do direito autoral. Eles ficam por aí computando o número de vezes que as músicas tocam no carnaval pra depois fazer as contas dos direitos autorais. Assim eu levanto mais uns caraminguás. Agora dá licença que o trabalho me espera!

(GERALDO abraça uma morena, que vinha dançando entre eles, lhe dá um beijo e mostra o dinheiro que conseguiu com CIRO. Ela sorri e GERALDO volta a "reger" a bandinha. Eles saem cantando e dançando as mesmas músicas do início da cena. CIRO e PIMENTA riem.)

CENA 16

(Boteco. GERALDO bebe pinga com PIMENTA. GERALDO está meio alto e olha a bunda de uma morena, que passa.)

PIMENTA

Geraldo, você precisa parar com essa mania.

GERALDO

Que mania?

PIMENTA

De brigar com todo mundo.

GERALDO

Ah, bom, pensei que você tava falando de mulher.

PIMENTA

O vício do sexo frágil você não precisa largar. É um vício saudável. Mas você podia parar de roubar a mulher dos outros.

GERALDO

Bobagem, Pimenta. As mulheres estão aí no mundo, ninguém é dono delas, não.

PIMENTA

Você tá falando da mulher dos outros, né? Que as suas você não gosta nem que olhem pra elas.

GERALDO

Claro, Pimenta, em assunto de mulher eu sou um socialista-capitalista! As mulheres dos outros são propriedade pública. As minhas, propriedade privada!

(Eles riem.)

PIMENTA

Tá, mas vê se não me arranja mais confusão. Tô começando a ficar cansado de levar porrada por tua causa.

GERALDO

Deixa comigo que hoje eu tô tranqüilão.

PIMENTA

(Descrente)

Tô vendo. Já derrubou duas garrafas de pinga...

(CANELA entra, convencido, olhando todo mundo de cima. GERALDO olha com cara de poucos amigos para CANELA.)

GERALDO

Não fui com os cornos desse sujeito.

PIMENTA

Geraldo!

GERALDO

Vou partir a cara dele, Pimenta.

PIMENTA

Deixa de bobagem, Geraldo, esse aí é o Canela.

GERALDO

E daí?

PIMENTA

Daí que o cara é bom de pernada. Malandro conhecido na área.

GERALDO

E eu lá vou ter medo de um homem chamado Canela?! (Alto, para CANELA ouvir) Canela pra mim é nome de veado! Ou então tempero pra pôr no arroz doce! (Ri)

CANELA

(Se aproxima de GERALDO, ameaçador)

Falou comigo?

(Tensão no bar. Todos se afastam, já prevendo briga.)

GERALDO

Não falei com você porque não falo com veado! Em veado só dou porrada!

(GERALDO briga com CANELA e o põe pra dormir rapidamente. Todos se aproximam para ver o valente caído. Os mesmos policiais da cena 13 chegam.)

POLICIAL 1

O que houve por aqui?

GERALDO

Nada, não, o distinto aí bebeu demais e desmaiou.

POLICIAL 2

(Puxa um revólver)

Desmaiou ou foi desmaiado? Quem é o sujeito?

GERALDO

Um tal de Canela.

POLICIAL 1

Canela?! Pra delegacia, todo mundo!

GERALDO

Mas eu não fiz nada, eu/

POLICIAL 1

(Corta)

Isso você vai explicar pro delegado! Vambora!

(Eles levam GERALDO e CANELA, ainda desmaiado, para a delegacia.)

CENA 17

(Delegacia. O mesmo delegado da cena 14 trabalha em sua mesa. Os POLICIAIS entram, trazendo GERALDO.)

POLICIAL 1

Taí, seu delegado, o sujeito que pôs o Canela pra dormir.

GERALDO

Olha, seu delega, foi sem querer, eu tava no bar e/

DELEGADO

(Corta)

Ah, você de novo!

GERALDO

O senhor me persegue, hein!... Esse tal de Canela é algum figurão, é?

DELEGADO

Seu Geraldo Pereira, nunca pensei que fosse dizer isso um dia, mas devo lhe dar meus parabéns!

(O DELEGADO aperta a mão de GERALDO efusivamente.)

GERALDO

Parabéns?!

DELEGADO

Tem mais de dois meses que nós estávamos querendo prender o Canela, mas nenhum guarda meu tinha coragem levar a ordem de prisão.

GERALDO

É?!

DELEGADO

E agora que o Canela está no seu lugar, atrás das grades, nós podemos comemorar. O que o distinto bebe? (Saca uma garrafa de cachaça e dois copos) Uma branquinha?

GERALDO

No samba eu prefiro uma escurinha. Mas pra beber, só dá branquinha!

(Eles se servem, brindam e começam a beber na maior animação.)

GERALDO

Tô começando a gostar dessa delegacia, sabia?...

CENA 18

(Gafieira Elite. Som rolando, casais dançando. GERALDO num canto, amuado. PIMENTA chega.)

PIMENTA

Ué, Geraldo, cadê a tua irmãzinha?

GERALDO

Dançando.

PIMENTA

Dançando?! E tu deixou ela dançar com outro?

GERALDO

Mulher não vale nada, Pimenta...

PIMENTA

Vai lá e tira ela pra dançar! Ela não veio contigo?

GERALDO

Veio.

PIMENTA

Então! Vai dar uma de Pai-João?

GERALDO

Quando eu tiro pra dançar, ela diz que já tem par!

PIMENTA

Já tem par?! Tô te estranhando, Geraldo.

GERALDO

Diz que é sem compromisso.

PIMENTA

Sem compromisso?! E você não vai fazer nada, Geraldo?!

GERALDO

Vou. Vou fazer um samba!

(GERALDO canta "Sem compromisso".)

GERALDO

(Canta)

"Você só dança com ele

E diz que é sem compromisso

É bom acabar com isso

Não sou nenhum Pai-João

Quem trouxe você fui eu

Não faça papel de louca

Pra não haver bate-boca

Dentro do salão

Quando toca um samba

E eu lhe tiro pra dançar

Você me diz

Não, eu agora tenho par

E sai dançando com ele

Alegre e feliz

Quando pára o samba

Bate palma e pede bis"

GERALDO

Sabe do que mais, Pimenta? Não quero mais saber de mulher de cidade, não. É tudo vagabunda. Vou mandar trazer uma dona do interior, que lá, sim, é que tem mulher boa!

CENA 19

(Bar na Lapa. GERALDO bebe, triste. PIMENTA chega.)

PIMENTA

E aí, Geraldo, como é que tá a irmãzinha que você trouxe da roça?

(GERALDO apenas olha com ódio para PIMENTA e depois começa a cantar "Até hoje não voltou". PIMENTA não consegue disfarçar o riso.)

GERALDO

(Canta)

"Eu fui buscar

Uma mulher na roça

Que não gostasse de samba

E não gostasse de troça

Uma semana depois que aqui chegou

Mandou esticar os cabelos

E as unhas dos pés pintou

Foi dançar na gafieira

E até hoje não voltou

Ela não tinha um vestido

Um sapato que se apresentasse

Eu comprei

Chegou toda errada

Falar não sabia

Fui eu que ensinei

Perdi tanto tempo

Gastei meu dinheiro

Fui tão longe à toa

Mas já vi que sou muito infeliz

É melhor eu viver sem patroa"

PIMENTA

E você, como é que tá?

(GERALDO canta "Você está sumindo".)

GERALDO

(Canta)

"Nega, vem cá

Vem ver só

Como o teu nego ficou

Depois do tal dia, neguinha

Que você me deixou

Quem me conhece

Passa por mim

Jogando piadas, sorrindo

Você está ficando acabado

Xi, você está sumindo

Você foi embora, criança

Minha alma ficou quase louca

Não tiro você da lembrança

Não tiro seu nome da boca

Eu sinto-me tão acabado

Estou que nem posso de dor

Não queira saber

É de tanto pensar

No seu amor"

PIMENTA

É, malandro, maré de azar!...

GERALDO

Nem fala essa palavra que dá az/ (Se corrige) má sorte. Sabe o que eu acho que é?

PIMENTA

O quê?

GERALDO

Outro dia eu pisei num despacho.

PIMENTA

(Descrente)

E tu acha que pisar em despacho dá azar?

GERALDO

Olha a palavra, Pimenta! Não fala a palavra. Diz má sorte! Essas coisas são batata. Dão az... má sorte mesmo.

PIMENTA

E você vai fazer o quê?

GERALDO

Outro samba! É só o que eu sei fazer na vida. Quem sabe afasto essa maré de azar. (Se toca) Merda! Falei a palavra, Pimenta! É o fundo do poço, fundo do poço...

(GERALDO canta "Pisei num despacho".)

GERALDO

(Canta)

"Desde o dia em que passei

Numa esquina e pisei num despacho

Entro no samba meu corpo está duro

Bem que procuro a cadência e não acho

Meu samba e meu verso não fazem sucesso

Há sempre um porém

Vou à gafieira, fico a noite inteira

No fim não dou sorte com ninguém

Mas eu vou num canto

Vou num pai-de-santo

Pedir qualquer dia

Que me dê uns passes

Uns banhos de ervas

E uma guia

Está aqui no endereço

Um senhor que conheço

Me deu há três dias

O mais velho é batata

Diz tudo na exata

É uma casa em Caxias"

GERALDO

Pimenta, não quero mais saber de mulher. Agora só vou cuidar dos meus sambas. De mulher quero distância!

PIMENTA

Sei...

CENA 20

(Bar na Lapa. GERALDO e PIMENTA bebem e jogam ronda. GERALDO já está meio alto. Chega RAUL MORENO com ISABEL. GERALDO já fica de olho grande na moça.)

GERALDO

Olha o Raul Moreno com um pedaço!

PIMENTA

Fica na tua, Geraldo. Ela é namorada do Raul.

GERALDO

Aquela morena é muita areia pro caminhão do Raul. Preciso trazer essa irmãzinha pro meu caminhão. Afinal, dirigir caminhão é minha segunda profissão, é ou não é?

(Eles riem.)

PIMENTA

Fica na tua que você já tá alto, Geraldo.

GERALDO

Tô tão alto que cheguei no céu, Pimenta! Essa cabrocha é demais! (Chama) Raul! Senta aqui com a gente, meu companheiro!

(RAUL e ISABEL se chegam. PIMENTA já prevê confusão.)

GERALDO

Vamos sentando, minha gente!

(GERALDO arma para ficar sentado ao lado de ISABEL, deixando RAUL do outro lado da mesa. RAUL já sacando tudo.)

GERALDO

Raul, meu amigo, tô com um samba novo que é um estouro! O Ciro Monteiro vai gravar. (Para ISABEL) E você, irmãzinha, gosta de samba?

RAUL

Geraldo, a Isabel tá comigo.

GERALDO

(Ignora RAUL)

Nome lindo: Isabel! E então, gosta de samba, irmãzinha?

RAUL

(Agarra GERALDO pela gola)

Geraldo, você ainda não entendeu que a Isabel tá comigo?!

GERALDO

Tudo bem, já entendi, já entendi.

(RAUL solta GERALDO, que finge não querer briga.)

GERALDO

Você anda muito nervoso, Raul. Tenha calma. Vou te dar um remédio pra relaxar!

(GERALDO, acerta um soco no queixo de RAUL, que cai desmaiado no chão. Todos correm para acudir RAUL, PIMENTA entre eles.)

PIMENTA

Ficou maluco, Geraldo?!

(ISABEL, que ia acudir RAUL, é interceptada por GERALDO.)

GERALDO

Peraí, minha irmãzinha, vamos conversar.

ISABEL

Você tá pensando que eu sou o quê?! Não entendeu que eu tô com ele?!

GERALDO

Escurinha, eu entendi que tu tens que ser minha, de qualquer maneira, teu dou meu boteco, te dou meu barraco, que eu tenho no morro de Mangueira. (Tem uma idéia) Isso dá samba, irmãzinha!

(GERALDO canta "Escurinha" para ISABEL, que, enquanto ouve, acode RAUL junto com os outros.)

GERALDO

(Canta)

"Escurinha, tu tens que ser minha

De qualquer maneira

Te dou meu boteco

Te dou meu barraco

Que eu tenho no morro de Mangueira

Comigo não há embaraço

Vem que eu te faço, meu amor

A rainha da escola de samba

Que teu nego é diretor

Quatro paredes de barro

Telhado de zinco, assoalho de chão

Só tu escurinha

É quem tá faltando no meu barracão

Sai disso, bobinha

Só nessa cozinha

Levando a pior

Lá no morro eu te ponho no samba

Te ensino a ser bamba

Te faço a maior"

GERALDO

Então, minha escurinha? Vens comigo ou não vens?

ISABEL

(Dá um tapa na cara de GERALDO)

Isso é pela sua covardia com o Raul! (Maliciosa, entrega um papel a GERALDO) E esse é o meu endereço...

(ISABEL sai com mais algumas pessoas, que carregam RAUL, ainda desmaiado. PIMENTA chega em GERALDO.)

PIMENTA

Tu só faz besteira, hein, Geraldo! Bater no Raul! O cara é dos nossos!

GERALDO

(Apaixonado, olhando o papel que ISABEL lhe deu)

Não tive saída, Pimenta! Quando vi essa mulher eu compreendi: a Isabel é a mulher da minha vida! Não podia fazer outra coisa!

PIMENTA

Podia ter feito um samba!

GERALDO

Eu fiz! E já tá me vindo outro! Escuta esse, Pimenta!

(GERALDO canta "Liberta meu coração". Enquanto ele canta, ISABEL entra em cena e começa a cantar junto com ele.)

GERALDO

(Canta)

"Enquanto a Isabel, a Redentora

Aboliu a escravidão

Outra Isabel, tão pecadora

Escravizou meu coração

Ai, meu viver é tão cruel

Liberta meu coração, Isabel

Meu coração é um escravo perfeito

Que vive acorrentado em meu peito

Solta este pobre sofredor

Que padece demais por teu amor"

CENA 21

(GERALDO, PIMENTA e ISABEL no samba. ISABEL está sambando. GERALDO olha apaixonado para ela.)

GERALDO

As cadeiras da minha Isabel têm um mistério, Pimenta. Quando ela requebra eu fico doido. Ela não é demais?

PIMENTA

(Animado)

Um estouro! Um estouro!

GERALDO

(Repreende)

Olha o entusiasmo, Pimenta! Olha o entusiasmo!

PIMENTA

Com todo respeito, Geraldo. Eu sei que a nega é tua. Mas que é um estouro, é!

GERALDO

É, mas não fica botando essas botucas em cima dela, não. Tira o olho! Tira o olho!

PIMENTA

Mas foi você que falou pra olhar!

GERALDO

Mas olha pouco que gasta! (Apaixonado) Pimenta, quando eu vejo a minha redentora sambando assim, te juro, me sinto mais brasileiro.

PIMENTA

Isso dá samba, hein, Geraldo.

GERALDO

Até você já tá aprendendo, né, Pimenta?

(GERALDO vai pra roda sambar com ISABEL enquanto canta "Quando ela samba".)

GERALDO

(Canta)

"Quando a minha cabrocha

Entra no samba

Que tem na favela

Com a sua saia de roda

Verde e amarela

Sinto que todos desejam

Sambar com ela

Eu não sei qual o mistério que há

Nas cadeiras dela

Quando o samba é bem cantado

Batem palmas e é bisado

Somente pra minha cabrocha sambar

E quando a vejo sambando

Cantando ao som de um pandeiro

Eu juro me sinto mais brasileiro"

CENA 22

(Casa de GERALDO. GERALDO e ISABEL sentados na cama. Vários cadernos de caligrafia e livros de português espalhados. GERALDO tenta melhorar a caligrafia de ISABEL.)

GERALDO

Esse teu P parece mais um F, minha redentora. Assim tu troca meu nome pra Geraldo Ferreira!

ISABEL

Ah, meu nego, pra que eu preciso escrever bem?

GERALDO

Todo mundo precisa estudar, conhecer as coisas, escrever direito. Imagina se eu faço uma letra de música com uma palavra escrita errada! Vou mostrar pra um cantor bom, dou com os burros n'água!

ISABEL

Tu eu entendo, meu nego, precisa, é o teu trabalho. Mas eu!...

GERALDO

Tu precisa aprender pra poder me acompanhar quando eu for cantar em Paris.

ISABEL

Em Paris eles falam francês!

GERALDO

Francês é igual português, é só trocar as palavras em português pelas palavras certas em francês que dá tudo certo.

(Eles se beijam.)

ISABEL

Posso te fazer uma pergunta, Geraldo?

GERALDO

Já fez. Mas pode fazer outra.

ISABEL

Eu conheço a tua fama. Cada dia você tá com uma mulher diferente. Eu sou mais uma pra tua coleção?

GERALDO

Parei minha coleção no dia que te conheci, Isabel. Você é a minha redentora, vai me libertar de todas as outras mulheres e eu vou ser só seu.

ISABEL

Jura?

GERALDO

Juro.

(Eles sorriem e se beijam.)

GERALDO

Tenho uma boa pra te contar!

ISABEL

Que foi?

GERALDO

Fui promovido na prefeitura! Vou ganhar aumento!

ISABEL

Parabéns, meu nego. (Beija GERALDO) Quem sabe agora a gente pode começar a pensar em comprar uma casinha só pra gente, casar...

GERALDO

A casinha, pode ser, mas casar não dá.

ISABEL

Por que não?

GERALDO

Porque já sou casado.

ISABEL

(Invocada)

Tu é casado, Geraldo?!

GERALDO

Só no papel, só no papel.

ISABEL

Que história é essa?

GERALDO

Meu irmão, lá na Mangueira, era todo metido a xerife do morro. Quando soube que a mulher tinha engravidado, me obrigou a casar com ela.

ISABEL

Mas então você tem até filho!

GERALDO

Devo ter, mas nunca vi. Aliás, é melhor a gente falar de outra coisa. Não gosto desse assunto. Ou você faz questão de casar de papel passado?

ISABEL

Claro que não, meu nego, já vivo com você, com papel ou sem papel, somos casados.

GERALDO

Então pronto! E você pode ficar descansada, que comprando a casa, ponho tudo no teu nome. Mas primeiro vou ter que pagar o que tô devendo ao Ciro. Ele vive me emprestando dinheiro. Com o primeiro salário do aumento, saldo minha dívida. Depois a gente começa a pensar na nossa casinha. Imagina: uma casinha, o meu violão e você do meu lado, me dando inspiração...

ISABEL

Ah, Geraldo, vai ser o paraíso.

GERALDO

O paraíso é você, Isabel. Olha o samba que fiz pra você.

ISABEL

Outro?!

GERALDO

Não vou parar nunca de fazer samba pra você, minha redentora!

(ISABEL sorri. GERALDO canta "Bonde da Piedade" para ela.)

GERALDO

(Canta)

"De manhã eu deixo o barracão

Vou pro ponto de seção

Cheio de alegria

Pego o bonde Piedade

Desembarco na cidade

Em busca do pão de cada dia

À princípio meu ordenado

Era pouco e muito trabalho

Agüentei o galho e o tempo passou

Agora fui aumentado

Passei a encarregado

A minha situação melhorou"

CENA 23

(Casa de GERALDO. ISABEL anda de um lado para o outro, preocupada. Olha para o relógio e não consegue sossegar. GERALDO entra, bêbado.)

ISABEL

Isso são horas, seu cafajeste?

GERALDO

O que é isso, minha redentora?

ISABEL

Onde você tava, Geraldo?

GERALDO

Na viração, promovendo minhas músicas.

(ISABEL vê a gola do terno de GERALDO manchada de batom.)

ISABEL

E essa mancha de batom no teu terno? Tu tava era na gandaia!

GERALDO

Claro que não, minha libertadora, eu tava correndo as gafieiras pra fazer farol das minhas músicas, tentar vender samba... você sabe como são essas coisas...

ISABEL

Sei! E fica se esfregando naquelas vagabundas...

GERALDO

Dei uma sambadinha, sim, que ninguém é de ferro... essa mancha deve ter sido por acaso, alguma dama deve ter esbarrado em mim, só isso.

(ISABEL puxa o lenço do bolso de GERALDO. O lenço também está manchado de batom. Ela mostra o lenço a GERALDO.)

ISABEL

E isso aqui, também foi por acaso?

GERALDO

Ô, minha redentora, vem cá.

(GERALDO tenta abraçar ISABEL, que se afasta e começa a cantar "Resignação".)

ISABEL

(Canta)

"Quem é que lava a roupa

Pra você dançar?

Quem é que não marca hora

Pra você chegar?

Quem é que sofre com resignação

Quando você traz a gola do terno

Suja de batom?

Mas ontem você faltou

Com o respeito para mim

Trazendo um lenço

Manchado de carmim

Não vá dizer que a dama

Dançou em seu bolso

Pois não é possível

Nem tampouco o rosto

Você limpou

É preciso mudar de pensar

Porque a minha paciência

Pode se esgotar"

CENA 24

(Quarto da casa de GERALDO. ISABEL faz as unhas do pé na cama, GERALDO está deitado. Os dois brigados. GERALDO tenta fazer um carinho em ISABEL, que o rechaça firmemente.)

ISABEL

Sai pra lá, canalha!

GERALDO

Ô, minha redentora, faz três dias que você tá com essa tromba. Eu tô com saudades da minha neguinha... Vamos fazer as pazes, vai...

ISABEL

Tu não fala comigo que eu enfio esse vidro de esmalte no teu nariz de boi!

GERALDO

Nariz de boi?! Minha redentora, tudo isso por causa de um lencinho sujo de carmim?...

ISABEL

Você me prometeu que ia mudar de vida, Geraldo. Que ia largar das brigas e das mulheres. Odeio gente falsa.

GERALDO

Ô, minha redentora, perdoa esse teu nego que só faz bobagem.

(GERALDO tenta fazer um carinho em ISABEL, que ameaça enfiar o vidro de esmalte no nariz dele. GERALDO ri.)

GERALDO

Que arma mais engraçada, minha nega, vidro de esmalte... imagina eu morto, com um vidro de esmalte enfiado no nariz!

(ISABEL tem vontade de rir, mas segura a onda. GERALDO percebe.)

GERALDO

(Sedutor)

E se eu pegasse o meu violão e fizesse um samba pra você, minha redentora?

(ISABEL gosta, mas disfarça e dá as costas a GERALDO, que pega seu violão, tenta uns acordes iniciais, alguma melodia, até que começa a cantar "Pode ser?".)

GERALDO

(Canta)

"Entre nós houve uma contrariedade

Pra dizer a verdade

Eu não guardo rancor

Por que é que você quando passa

Por mim não me dá mais bonjour

Se eu sempre vi em você

O meu rève d'amour

O que houve entre nós

Foi um mal-entendido

Tudo eu já fiz pra desfazer

Porque meu coração não é fingido

E precisa muito de você

Pode ser?"

(ISABEL acaba não resistindo e ri. Eles se beijam, fazendo as pazes.)

CENA 25

(Casa de GERALDO. ISABEL costura e canta um trecho de "Boca Rica".)

ISABEL

(Canta)

"Pessoal, vamos beber

Pra dona da casa não se aborrecer

Vamos agradar a dona Chica

Pra gente não perder essa boca rica"

(GERALDO entra, todo animado.)

GERALDO

Minha redentora, vou trabalhar no teatro!

ISABEL

O quê?!

GERALDO

Isso mesmo que você ouviu! Vou ser ator numa peça de teatro.

ISABEL

Que história é essa, Geraldo?

GERALDO

Foi o Ciro Monteiro que me arranjou.

ISABEL

O Ciro, hein, sempre te ajudando...

GERALDO

Vou ser um carregador. O nome da peça é Anjo Negro. Nome bonito, né?

ISABEL

Mas se você só vai carregar coisas, não vai ser ator, vai ser estivador!

GERALDO

Deixa de burrice, Isabel. Eu vou fazer o papel de um carregador, mas vou ter umas falas e tudo. Vou até cantar!

ISABEL

Samba?

GERALDO

Claro que não, né, Isabel! Onde já se viu samba no teatro?!...

ISABEL

Que que tem?

GERALDO

Teatro é coisa séria, samba não entra lá, não. Se entra samba no teatro a dona Bárbara Heliodora tem um troço!

ISABEL

Mas então você canta o quê?

GERALDO

É uma música meio esquisita, meio fúnebre. Mas bonita. Aliás, a peça toda é meio fúnebre. É a história de um crioulo que casou com uma branca. Mas todo filho que nasce preto, a branca mata.

ISABEL

Que coisa horrível.

GERALDO

Isso é. Acho que esse tal de Nélson Rodrigues é meio doente.

ISABEL

Quem é Nélson Rodrigues?

GERALDO

O sujeito que escreveu a peça. Mas o que interessa é que eu vou ganhar um bom trocado!

ISABEL

E quando é a estréia? Quero ir te ver!

GERALDO

Calma, mulher. O diretor disse que primeiro a gente vai ter que ensaiar. Ensaiar muito!

ISABEL

Mas não vai atrapalhar o teu trabalho na prefeitura?

GERALDO

Os ensaios vão ser de noite.

ISABEL

(Invocada)

Ô, Geraldo, essa história de teatro não é armação pra você ir pra noite se meter com mulher, hein?!

GERALDO

Deixa de bobagem, Isabel. Teatro é coisa séria. E eu vou caprichar pra você, minha nega. Você vai ver, vou ser o melhor ator da peça. E vou fazer tudo pra você! Só pra você!

ISABEL

Tomara que esses ensaios não demorem muito...

CENA 26

(Teatro Fênix. Estréia de Anjo Negro. Cadeiras no fundo do palco, simulando a platéia. Nelas, apenas ISABEL sentada, assistindo, vidrada, à peça. Os atores representam de costas para a platéia real, de frente para a cenográfica. Em cena, quatro CARREGADORES, duas NEGRAS e o CEGUINHO. GERALDO é um dos carregadores. Durante toda a cena, GERALDO fica passando a mão na bunda de uma das NEGRAS, que foge dele, ambos disfarçando para que a platéia fictícia não perceba.)

CARREGADOR

Pulou o muro, ceguinho?

CEGO

O portão estava aberto.

CARREGADOR

Está se arriscando, companheiro. O homem não gosta que branco entre aqui.

GERALDO

Está vendo esses muros? Ah, você é cego! Pois é: ele cercou tudo. Muro por toda parte. Para ninguém entrar. E se a visita teima, ele passa fogo. Já meteu bala num, foi, não foi?

CARREGADOR

Só porque o sujeito, que era branco, veio espiar!

CEGO

Então, é ele.

CARREGADOR

Que foi que disse?

CEGO

Falando sozinho.

CARREGADOR

Nós somos lá do cemitério. Vamos levar o filho do homem, que morreu.

CEGO

Diga, ele se chama Ismael?

GERALDO

O doutor? Sim. E que médico!

CEGO

Preto, não é?

GERALDO

Mas de muita competência!

CARREGADOR

Não tem como ele!

CARREGADOR

Doutor de mão cheia!

GERALDO

Mas tome um conselho: não fale em preto, que ele se dana!

CEGO

(Para si mesmo)

Quer ser branco, não perde a mania. (Tom) E a mulher?

CARREGADOR

Ah, essa, meu filho! Ninguém vê!

CEGO

Eles estão bem?

GERALDO

Se brigam muito, ninguém sabe!

CEGO

Pergunto, se estão bem de dinheiro?

GERALDO

Estão cheios! Têm tanto, que ele não atende mais chamado, não dá mais consulta!

CEGO

Vai ver que a mulher é de cor. Ou me engano?

GERALDO

Se engana! Branca e daquelas! Uma coisa por demais. Eu conheci solteira, de meia curta. Depois não vi nunca mais!

CEGO

(Para si mesmo)

Eu já sabia, só podia ser branca! (Muda de tom) Eu queria falar com ele!

CARREGADOR

Com o doutor?!

GERALDO

Não lhe aconselho!

CEGO

Sou parente longe, segundo ou terceiro grau. Já vou indo.

GERALDO

Por aqui, sempre em frente. Precisa que eu lhe acompanhe?

CEGO

Vou sozinho, obrigado.

(O vagabundo caminha, penosamente, guiando-se pelo bastão. Fala sozinho.)

CEGO

Tem morto na casa e nem parece. Não estou ouvindo choro, nem grito nenhum. Liga-se menos a morte de criança.

(Os quatro negros esperam que o cego desapareça nos fundos da casa. Fazem muita fumaça com os charutos.)

CARREGADOR

Está na hora!

CARREGADOR

Ele disse meio-dia e ainda falta.

GERALDO

(Deitando-se no chão e apoiando a cabeça nas duas mãos)

Não faço fé que esse camarada seja parente dele.

CENA 27

(Corredor,  perto dos camarins. Vários atores circulam por ali. GERALDO entre eles. ISABEL entra, toda sem jeito.)

GERALDO

Minha redentora! Gostou da peça?

ISABEL

É muito linda. E tu tava o máximo, Geraldo. (À parte) O melhor ator da peça...

GERALDO

Ainda bem que gostou, fiz pensando em você, minha redentora.

ISABEL

Só não entendi uma coisa: por que você ficava andando de um lado pro outro do palco enquanto falava? Até parecia que você tinha que andar atrás daquela atriz... (Aponta a atriz negra bolinada por GERALDO)

(A atriz olha feio para GERALDO.)

ISABEL

Não era aquela ali?

GERALDO

É... Isso aí foi o diretor que mandou. Ele disse que... dá mais movimentação na cena. Coisa de teatro que tu não entende.

ISABEL

Ah... Ih, aquela não é a Maria Della Costa?

GERALDO

(Mostrando, discretamente)

É. Aquela outra é a Itália Fausta, grande atriz. Ali é uma novata, se chama Nicete Bruno. Dizem que tem futuro.

(A atriz bolinada por GERALDO chega neles, cheia de más intenções.)

ATRIZ

Então você é que é a Isabel, mulher do Geraldo?

GERALDO

(Apavorado)

É, ela mesma. Agora vamos indo pro Capela, minha redentora, que eu tô louco pra contar da minha estréia pro pessoal do samba!

(GERALDO puxa ISABEL rapidamente e os dois saem. A ATRIZ balança a cabeça negativamente.)

CENA 28

(Casa de GERALDO. ISABEL e GERALDO jantam.)

ISABEL

Geraldo, tem uma coisa aí... coisa chata...

GERALDO

Que coisa?

ISABEL

É o nosso vizinho. Esse tal de Cabo Verde.

GERALDO

Que que tem?

ISABEL

Eu não queria te falar... mas o sujeito tá passando dos limites.

GERALDO

O que ele fez?

ISABEL

Toda vez que eu saio pra fazer compra ele cisma de passar a mão em mim.

GERALDO

(Se levanta e já vai saindo, irado)

Cachorro! Vou acabar com a raça daquele desgramado!

ISABEL

(Retém GERALDO, preocupada)

Cuidado, amor! O Cabo Verde é muito forte!

GERALDO

E eu lá tenho medo de homem?

ISABEL

Mas ele é estivador no cais do porto! Já botou pra correr duas RP's recheadas de canas! Sozinho!

GERALDO

Isso é pinto pra mim! Vai ser um soco só, Isabel, e ponho esse safado pra dormir!

(GERALDO sai. ISABEL sai atrás, desesperada.)

ISABEL

Não, Geraldo, não! Cuidado, meu amor!

GERALDO

(Berra)

Cabo Verde! Cabo Verde!

(CABO VERDE aparece na sacada do prédio.)

CABO VERDE

Que foi?

GERALDO

Desce aqui que eu quero trocar dois dedos de prosa com você.

CABO VERDE

Vai dormir, Geraldo.

GERALDO

Você pensa que pode ficar bolinando a minha mulher, seu safado?! Desce aqui que vou lhe partir a cara!

CABO VERDE

Vai dormir, Geraldo, você não é páreo pra mim!

GERALDO

Seja homem, seu maricas! Fica se engraçando com minha mulher nas minhas costas e agora se arrega!

(CABO VERDE se irrita e desce.)

GERALDO

Desce que vou lhe partir as fuças! Trouxa que nem você já botei pra dormir um monte! Desce aqui que tu vai ver o que é ser homem!

(CABO VERDE sai do prédio. É um estivador enorme, extremamente forte e muito maior do que GERALDO. CABO VERDE puxa uma navalha. ISABEL treme de medo.)

ISABEL

Geraldo!

(GERALDO desfere um soco no queixo do CABO VERDE, que cai desmaiado.)

GERALDO

(Convencido)

Pronto, esse aí nunca mais mexe com mulher minha!

ISABEL

(Se enrosca em GERALDO)

Ai, Geraldo, você é meu herói!

(Eles ficam se beijando.)

SÃO PEDRO

(De lá do céu)

Geraldo! Geraldo!

GERALDO

(Sai do beijo)

Que foi?

SÃO PEDRO

Foi assim mesmo que aconteceu?!...

GERALDO

Foi, Pedrão...

SÃO PEDRO

Geraldo!

GERALDO

Mas foi, Pedrão!

SÃO PEDRO

Não é o que tá escrito no Livrão...

(GERALDO fica super sem graça.)

SÃO PEDRO

Uma mentira contada na Terra é grave. Uma mentira contada na porta do céu é muito mais!

GERALDO

Pô, Pedrão, se eu contar como foi de verdade vou ficar mal na fita. Vamos pular esse episódio, vamos...

SÃO PEDRO

De jeito nenhum. Agora é a hora da verdade. Se você mentir tua situação complica.

GERALDO

Complica, é?

SÃO PEDRO

Muito.

GERALDO

Tudo bem, Pedrão, vou contar como foi de verdade. Mas não espalha, pelo amor de Deus!

(SÃO PEDRO ri e balança a cabeça. GERALDO e ISABEL voltam ao início da cena. ISABEL e GERALDO jantam.)

ISABEL

Geraldo, tem uma coisa aí... coisa chata...

GERALDO

Que coisa?

ISABEL

É o nosso vizinho. Esse tal de Cabo Verde.

GERALDO

Que que tem?

ISABEL

Eu não queria te falar... mas o sujeito tá passando dos limites.

GERALDO

O que ele fez?

ISABEL

Toda vez que eu saio pra fazer compra ele cisma de passar a mão em mim.

GERALDO

(Com medo)

Não é engano, não, Isabel? O Cabo Verde é casado, tipo respeitador...

ISABEL

É. Mas é só a mulher dele sair de casa que ele perde todo o respeito comigo.

GERALDO

O Cabo Verde não é aquele estivador?...

ISABEL

Ele mesmo.

GERALDO

Um grandão assim?...

ISABEL

Ô, Geraldo, tu tá se arregando pra esse cachorro, é?!

GERALDO

(Se borrando de medo)

Claro que não, minha redentora, mas é que o homem é casado, parece ser respeitador, pode ser engano seu...

ISABEL

Engano?! Ele passa a mão na minha entrada de serviço todo dia e tu acha que é engano?!

GERALDO

Pode ser... Ele deve estar te confundindo com outra...

ISABEL

(Fula)

Pode deixar, Geraldo! Vou falar com o meu pai e ele se entende com o Cabo Verde!

GERALDO

De jeito nenhum! Teu homem sou eu!

ISABEL

Homem?! Hum! Melhor chamar meu pai. Ele tem uma conversa com esse safado e fica tudo resolvido.

GERALDO

De jeito nenhum! Eu... eu vou lá me entender com esse safado.

ISABEL

Vai precisar de ajuda?

GERALDO

E eu lá preciso de ajuda de mulher! Vou arrebentar a cara do safado sozinho!

(GERALDO sai. ISABEL fica, descrente.)

CENA 29

(Bar. PIMENTA no balcão, bebendo. GERALDO entra.)

PIMENTA

Salve, Geraldo. O que manda?

GERALDO

(Para o BALCONISTA)

Desce uma branquinha! (Para PIMENTA) Conheces um tal de Cabo Verde?

(O BALCONISTA serve a cachaça a GERALDO.)

PIMENTA

Quem não conhece o Cabo Verde? O grande Cabo Verde... O enorme Cabo Verde... O monstruoso Cabo Verde!

GERALDO

(Amedrontado)

Mas o homem é grande mesmo?...

PIMENTA

O problema não é só o tamanho. Além de grande, o homem é bom de pernada! Tem um soco que é uma bomba atômica! E anda armado de navalha o tempo todo.

GERALDO

(Vira o copo de uma vez e fala ao BALCONISTA)

Mais uma! (Para PIMENTA) Mas é tanto assim?

PIMENTA

Quem já viu o homem brigar diz que é o demônio.

(O BALCONISTA serve mais uma cachaça a GERALDO)

PIMENTA

Já botou pra correr duas RP's recheadas de canas! Sozinho!

GERALDO

(Vira o copo de uma vez, assustado)

É... dureza...

PIMENTA

Mas por que você tá perguntando?

GERALDO

(Disfarça)

Nada. Só pra saber... (Para o BALCONISTA) Bota logo três de uma vez, menino!

(O BALCONISTA serve três copos e GERALDO vira os três de uma vez.)

GERALDO

Licença, que eu preciso resolver um problema.

(GERALDO sai. PIMENTA estranha.)

CENA 30

(Porta do prédio de GERALDO. GERALDO chega, bêbado.)

GERALDO

(Berra)

Cabo Verde! Ô, Cabo Verde!

(CABO VERDE aparece na sacada.)

CABO VERDE

Que foi?

GERALDO

Desce aqui que eu quero trocar dois dedos de prosa com você.

CABO VERDE

Vai dormir que você tá bêbado, Geraldo.

GERALDO

Você pensa que pode ficar bolinando a minha mulher, seu safado! Desce aqui que vou lhe partir a cara!

CABO VERDE

Vai dormir, Geraldo, você não é páreo pra mim sóbrio. Ainda mais bêbado!

GERALDO

Seja homem, seu maricas! Fica se engraçando com minha mulher nas minhas costas e agora se arrega!

(CABO VERDE se irrita e desce. GERALDO não percebe que ele está descendo e continua com seus insultos.)

GERALDO

Desce que vou lhe partir as fuças! Otário que nem você já botei pra dormir um monte! Desce aqui que tu vai ver o que é ser homem!

(CABO VERDE sai do prédio. ISABEL também sai do prédio com uma frigideira na mão e vem ficar do lado de GERALDO.)

ISABEL

Dá nele, Geraldo! (Mostra a frigideira) Se precisar de ajuda, tô aqui.

(O CABO VERDE saca uma navalha e vai se aproximando deles. GERALDO pega ISABEL pela mão e sai correndo.)

GERALDO

Corre, mulher! Corre!

CENA 31

(Bar. ISABEL e GERALDO entram correndo. GERALDO vem olhar pra fora do bar, meio se escondendo.)

GERALDO

Acho que despistamos o homem.

ISABEL

Tu é um frouxo mesmo, hein, Geraldo!

GERALDO

O homem tava armado, minha redentora!

ISABEL

Deixa o pessoal saber que tu saiu correndo do Cabo Verde que nem mulherzinha...

GERALDO

Ô, minha redentora, deixa essa história na surdina... vai me deixar mal com os bambas...

ISABEL

Frouxo!

(ISABEL sai irritada.)

SÃO PEDRO

Agora sim!

GERALDO

(Indica a platéia)

Pô, Pedrão, me deixou mal com a rapaziada...

SÃO PEDRO

Continua, continua.

GERALDO

(Irritado)

Mas vê se não me atrapalha mais!

SÃO PEDRO

É só você não mentir...

CENA 32

(Bar Capela. Numa mesa estão CIRO MONTEIRO, ISABEL, GERALDO E PIMENTA.)

GERALDO

(Para CIRO.)

Vocês cantores é que levam vida boa! Nós, compositores, só ficamos com as migalhas. Mas nós é que somos importantes, porque se a gente não compuser, não tem samba pra vocês cantarem.

CIRO

Bobagem, Geraldo. Tá cheio de compositor por aí ganhando bem. Você é que não sabe cuidar bem dos teus negócios.

GERALDO

Como é que eu não sei cuidar dos meus negócios?!

CIRO

Você vive tomando porre por aí, brigando pela noite, arranjando confusão. Ninguém respeita gente assim.

GERALDO

E é só porque eu tomo uma branquinha aqui e ali que eu não consigo fazer meu pé de meia?! É?!

CIRO

Eu acho que é.

(GERALDO se levanta, irritado, e parte pra cima de CIRO, que também se levanta, meio assustado. ISABEL e PIMENTA seguram GERALDO.)

PIMENTA

Que isso, Geraldo? O Ciro é teu padrinho!

GERALDO

Padrinho que vive às custas dos meus sambas! Ele tá aí, no bem bom, e eu sempre na dureza!

CIRO

Você acha isso mesmo, Geraldo?

ISABEL

(Repreende)

Geraldo!

GERALDO

Acho!

CIRO

Então pode ficar tranqüilo, Geraldo, que eu nunca mais gravo samba teu. Vamos ver se assim você fica rico! Com licença. (Sai)

PIMENTA

Geraldo, você ficou doido? O Ciro é teu compadre!

ISABEL

A pessoa que mais te ajudou na vida!

GERALDO

(Não dá o braço a torcer)

Sanguessugas! Isso é o que esses cantores são! Quer saber? A partir de hoje vou cantar eu mesmo meus sambas! Vamos ver se vou ganhar dinheiro ou não!

PIMENTA

E você acha que tem voz pra isso?!

GERALDO

Esse é que é o problema... eu não tenho esse vozeirão todo, não...

ISABEL

Então faz como todo mundo que não tem gogó: bota um coro de pastoras pra cantar contigo que disfarça.

GERALDO

Grande idéia, minha redentora!

ISABEL

E eu vou ser a pastora número um do teu grupo.

GERALDO

Com você me acompanhando vou cantar melhor que o Ciro Monteiro!

(Eles se beijam.)

ISABEL

Mas que você foi injusto com o Ciro, isso foi! Você devia pedir desculpas pra ele.

GERALDO

(Não se entrega)

Vamos mudar de assunto, vamos?

CENA 33

(Cassino da Urca. Show de GERALDO. Uma das pastoras é ISABEL.)

APRESENTADOR

O Cassino da Urca tem o prazer de apresentar o cantor e compositor Geraldo Pereira, acompanhado de suas pastoras!

(Entram GERALDO e as pastoras, entre elas ISABEL. Eles cantam um meddley com "Acertei no milhar", "Bolinha de papel" e "Vai que depois eu vou".)

GERALDO E SUAS PASTORAS

(Cantam)

"Etelvina, acertei no milhar

Ganhei quinhentos contos

Não vou mais trabalhar

Você dê toda a roupa velha aos pobres

E a mobília podemos quebrar

Isso é pra já

Só tenho medo da falseta

Mas lhe adoro, Julieta

Como adoro a papai do céu

Quero seu amor minha santinha

Mas só não quero que me faça

De bolinha de papel

Tá louca, chamando pra casa

Agora que o samba enfezou

Estou com uma turma pra cabeça

Não aborreça, vai que depois eu vou

Gastei um dinheirão

Na sua fantasia

E você não sabe aproveitar

E ainda fica empatando

Não brinca nem deixa a gente brincar"

CENA 36

(Camarim do Cassino da Urca. ISABEL, os MÚSICOS e as PASTORAS se preparam para ir pra casa.)

ISABEL

Quando o Geraldo falou que a gente ia cantar no Cassino da Urca eu não acreditei!

PASTORA 1

Que luxo! Vocês viram?

PASTORA 2

Alguém falou que a Carmem Miranda tava na platéia. É verdade?

PASTORA 1

Eu acho que era ela, sim. Mas sem os balangandãs fica difícil de dizer, né?

ISABEL

Meu Deus, que responsabilidade! A Carmem Miranda assistindo a gente!

(GERALDO entra, está assustado.)

GERALDO

Vambora, minha redentora.

ISABEL

Que cara é essa, Geraldo? Aconteceu alguma coisa?

GERALDO

(À parte)

Uma coisa muito esquisita. Fui no banheiro fazer minhas necessidades, quando olhei pro vaso tava tudo cheio de sangue.

ISABEL

Sangue?!

GERALDO

Fala baixo! O papel higiênico ficou todo vermelho. Que será que eu tenho, minha redentora?

ISABEL

Vamos no médico amanhã.

GERALDO

Não gosto de médico.

ISABEL

Mas precisa ir!

GERALDO

Não quero.

ISABEL

Então você vai no terreiro do Preto Velho comigo.

GERALDO

Não acredito nessas coisas.

ISABEL

Então tu vai ter que escolher: ou vai no médico ou no terreiro. Sem tomar providência é que não pode ficar. Anda, escolhe! Médico ou o terreiro?

GERALDO

Parada dura, hein! Não sei de qual dos dois eu gosto menos... vamos no terreiro! Agora vambora.

(Eles vão saindo.)

MÚSICO

Ê, Geraldo, e a nossa grana? Não vai sair?

GERALDO

Claro.

(GERALDO paga os músicos, que se reúnem a sua volta e vão contando o dinheiro.)

MÚSICO 1

Peraí, a gente combinou dois contos pra cada um!

GERALDO

É, mas a grana não foi o que eu esperava e só vai dar pra dar um conto pra cada um.

MÚSICO 2

Isso não tá direito, não, Geraldo. Você combinou dois contos. Se o dinheiro não deu, problema seu! Eu quero meu outro conto!

GERALDO

É? Então toma!

(GERALDO acerta um soco no MÚSICO 2. Os outros MÚSICOS vêm defender o primeiro. Vira pancadaria generalizada, com as mulheres gritando etc.)

CENA 35

(Terreiro do PRETO VELHO. ISABEL e GERALDO sentados, aguardando. GERALDO está amedrontado.)

GERALDO

Não gosto dessas coisas.

ISABEL

No médico você não quis ir.

GERALDO

Não gosto de gente que fala com gente morta.

ISABEL

Não é gente morta, são entidades.

GERALDO

Prefiro gente viva. Qualquer coisa, dá-se um murro no sujeito e o assunto tá resolvido. Mas num espírito! Como é que se acerta um soco numa entidade?!

ISABEL

Deixa de bobagem, Geraldo. Aqui só vem entidade do bem. Eles só querem ajudar.

GERALDO

E se me aparece alguém que não gosta de mim? Querendo vingança?

ISABEL

Você já matou alguém, Geraldo?!

GERALDO

Que eu saiba, não. Mas já briguei com tanta gente. Posso ter matado sem saber...

ISABEL

Bobagem. Essas coisas sempre se sabem.

(Entra o PRETO VELHO. GERALDO fica mais amedrontado ainda.)

PRETO VELHO

Zi fia Isabelinha! Prazer ver ocê aqui outra vez. E o grandalhão, quem é?

ISABEL

Esse é o Geraldo, meu paizinho. Aquele que te falei.

PRETO VELHO

Ah...

(PRETO VELHO olha fixamente para GERALDO durante alguns segundos. GERALDO mais amedrontado ainda. Entra uma mulher com uma bandeja e alguns copos.)

PRETO VELHO

Um homem desse tamanho se borrando de medo!...

GERALDO

(Morrendo de medo, mas disfarçando)

Quem disse que eu tô com medo?

(A mulher deixa a bandeja cair, fazendo barulho. GERALDO pula de susto e se esconde atrás de ISABEL. PRETO VELHO ri.)

PRETO VELHO

Tenha medo, não, zi fio. Se achegue no véio. Se achegue.

(ISABEL empurra GERALDO, que não quer ir, para perto do PRETO VELHO. GERALDO se borra de medo.)

PRETO VELHO

(Põe a mão na testa de GERALDO)

Esse nego tá muito carregado, Isabelinha. (Recebe espírito, fala para GERALDO) Tem coisa pra te dizer: suncê anda muito brigão. Isso é encosto dos ruins. Precisa de calma, senão vai perder todos os amigos, a mulher, tudo. E toma tenência, deixa de bebedô, porque suncê pode morrer botando todo o sangue do corpo pelo cu.

GERALDO

(Apavorado, se afasta do PRETO VELHO)

O senhor não joga praga pra cima de mim, não! Ainda fala palavrão!... Que pai de santo é esse, minha redentora?!

ISABEL

Não é praga, Geraldo. O paizinho só tá te alertando.

GERALDO

Espírito bom não fala palavrão! Vambora, Isabel!

(GERALDO puxa ISABEL pela mão e sai arrastando-a. PRETO VELHO, sério, balança a cabeça negativamente.)

CENA 36

(Casa de GERALDO. ISABEL costura ouvindo rádio, que toca "Até quarta-feira".)

SOM DO RÁDIO

"A batucada começou

Adeus, adeus, oh, minha querida eu vou

Não sei pra que você chorar

Se quarta-feira eu tenho que voltar"

(A música acaba e entra a voz do locutor.)

LOCUTOR

(Off)

O carnaval já começou, prezado ouvinte, e você ainda está sem fantasia? As casas Meveste tem/

(ISABEL fica tensa e desliga o rádio. GERALDO entra, na maior beca.)

GERALDO

Minha redentora, esquenta minha janta que vou direto pro ensaio da escola.

ISABEL

Vou contigo.

GERALDO

Melhor não, minha libertadora, vou a trabalho.

ISABEL

Conta outra, Geraldo.

GERALDO

Verdade, Isabel! Vou lá pra trabalhar meus sambas e preparar o desfile, só isso. Senão nem ia. O ambiente na Mangueira não anda essas coisas. Não é lugar pra minha redentora.

ISABEL

Deixa de frescura, Geraldo. Cansei de sambar na Mangueira! Além do mais, é carnaval, meu nego, a gente precisa se divertir juntos!

GERALDO

Amanhã eu te levo num baile, mas na Mangueira, não. O nível lá caiu muito, nega. Você não vai nesse ensaio, não.

ISABEL

Geraldo, por acaso tu tá de cacho com alguma vagabunda na Mangueira?!

GERALDO

(É isso mesmo, mas tenta disfarçar)

Que bobagem, minha redentora. A Mangueira não é mais ambiente pra você. Só isso.

ISABEL

Eu vou nesse ensaio, Geraldo!

GERALDO

Não vai!

ISABEL

Vou!

GERALDO

É? (Pega um molho de chaves e mostra) Quero ver você sair de casa sem chave!

(GERALDO sai e tranca a porta por fora, enquanto ISABEL esmurra a porta.)

ISABEL

Abre a porta, Geraldo! Geraldo!

(GERALDO ri e sai.)

ISABEL

Geraldo! Geraldo, seu cafajeste! Abre essa porta! Veado! Filho da puta! Você vai se ver comigo!

(ISABEL anda em círculos, fula. Até que tem uma idéia, pega sua bolsa e sai de casa pela janela.)

CENA 37

(Terreiro de samba na Estação Primeira de Mangueira. Samba rolando. GERALDO em beijos e amassos com uma morena. PIMENTA chega e puxa GERALDO à parte.)

PIMENTA

Geraldo, que isso?!

GERALDO

(Indica a morena)

Pimenta, se até hoje você não sabe, não sou eu quem vai te explicar. (Ri)

PIMENTA

Você sabe do que eu tô falando.

GERALDO

(Para a morena)

Vai sambar que eu já vou, irmãzinha.

(A morena vai sambar.)

PIMENTA

Cadê a Isabel?

GERALDO

Em casa. Não trago marmita pra banquete.

PIMENTA

Geraldo, você sabe que a Isabel não é mulher de levar chifre na testa. A baixinha é enfezada.

GERALDO

E eu lá tenho medo de mulher?

PIMENTA

Você não disse que a Isabel é a tua deusa, tua musa inspiradora, a mulher da tua vida?

GERALDO

É. Mas no carnaval a gente precisa tirar folga, que ninguém é de ferro, né?

PIMENTA

Mas você tira folga da Isabel o ano todo!

GERALDO

Então, no carnaval a gente tira a folga da folga! (Ri)

(PIMENTA não acha graça nenhuma.)

GERALDO

(Sério)

Deixa comigo que eu sei o que tô fazendo.

PIMENTA

(Sério)

Posso puxar um dos teus sambas?

GERALDO

Vai ser uma honra, Pimenta!

PIMENTA

Talvez ouvindo a você mesmo, você tome jeito na vida.

(GERALDO não entende. PIMENTA se chega no grupo de músicos, faz um sinal pra eles e começa a cantar "Golpe errado".)

PIMENTA

(Canta)

"Lá vem ele

Com seu terno branco engomado

Trazendo outra morena a seu lado

E a nega dele, na casa da branca se acabando

E ainda leva o jantar embrulhado

É, um golpe errado

Todo mundo diz que é

Um golpe errado"

(GERALDO se irrita com o que ouve e sai. PIMENTA continua a cantar.)

PIMENTA

(Canta)

"A hora que ele vai pra batucada

É a hora que ela chega do trabalho

E tem que fazer de madrugada

Bife mal passado

Pra ele não ficar contrariado

Todo mundo diz que é

Um golpe errado"

(GERALDO volta com uma cara assustada.)

PIMENTA

Que cara é essa, Geraldo? A Isabel te pegou no flagra?

GERALDO

Fui no banheiro agora e evacuei sangue.

PIMENTA

Será que tu menstruou, Geraldo? (Ri)

GERALDO

Deixa de palhaçada que é sério, Pimenta. Agora, dia sim, dia não isso acontece.

PIMENTA

Então é melhor tu procurar um médico e dar um tempo na bebida. Tuas entranhas devem estar arrebentadas.

GERALDO

É. Semana que vem vou no médico.

(A morena vem sambando pra perto deles.)

GERALDO

Mas agora é carnaval!

(GERALDO vai sambar coladinho com a morena. PIMENTA balança a cabeça negativamente.)

CENA 38

(Casa de GERALDO. GERALDO chega, bêbado e cantando um trecho de "Até quarta-feira".)

GERALDO

(Canta)

"A batucada começou

Adeus, adeus

Oh, minha querida eu vou

Não sei pra que você chorar

Se quarta-feira

Eu tenho que voltar”

GERALDO

Isabel, minha redentora! Faz um bifinho mal passado pro teu nego, que eu tô azul de fome! Isabel! Cadê você? Isabel!

(Ele procura pela casa toda e não acha ninguém. Até que percebe a janela aberta.)

GERALDO

Filha da puta!

(GERALDO se larga num sofá. ISABEL chega, também bêbada, e cantando o mesmo trecho de "Até quarta-feira".)

ISABEL

(Canta)

"A batucada começou

Adeus, adeus

Oh, minha querida eu vou

Não sei pra que você chorar

Se quarta-feira

Eu tenho que voltar”

GERALDO

(Fulo)

Onde é que você tava, Isabel?

ISABEL

(Irônica)

No samba, que nem você! Esqueceu que é carnaval, meu nego?

(GERALDO parte pra cima de ISABEL e lhe dá um empurrão. Ela cai no chão e GERALDO levanta a mão para bater nela. ISABEL se encolhe.)

SÃO PEDRO

Êpa! Êpa!

GERALDO

(Segura a mão no ar.)

Que foi?

SÃO PEDRO

Você bateu na Isabel, Geraldo?!

GERALDO

Bati, por quê?

SÃO PEDRO

E você acha certo bater em mulher?!

GERALDO

Só não é certo quando elas não merecem. Mas elas sempre merecem! (Ri)

SÃO PEDRO

Você acha isso mesmo?

GERALDO

Pô, Pedrão, bater em mulher não tem nada de mais. Lá no morro todo mundo bate.

SÃO PEDRO

E você acha que a Isabel merecia apanhar, especialmente de você?

GERALDO

Lá na Mangueira tem um ditado: o homem pode não saber por que tá batendo, mas a mulher sempre sabe por que tá apanhando.

SÃO PEDRO

É, isso vai ser um problema...

GERALDO

(Preocupado)

Pegou, é, Pedrão?...

SÃO PEDRO

Pegou. Faz o seguinte: pula a parte da porrada, que isso eu não quero ver. Depois a gente vê como fica.

GERALDO

Você que manda.

(ISABEL, caída num canto, chora. Ela se levanta, se olha num espelho e leva um susto. Há um enorme hematoma no seu rosto.)

ISABEL

Olha o que você fez, seu cachorro!

(GERALDO se assusta com o hematoma.)

GERALDO

Você me provoca, Isabel!

ISABEL

(Cheia de ódio)

Você nunca mais encosta a mão em mim, Geraldo! Nunca mais!

GERALDO

Você não podia ter ido pro samba sem minha autorização!

ISABEL

Você foi pra Mangueira se esfregar nas tuas negas, eu fui pro samba me esfregar nos meus negos!

(GERALDO ameaça bater nela de novo, mas se contém.)

ISABEL

Se você pode, eu também posso.

GERALDO

Deixa de bobagem e vai fazer um bife pra mim, que eu tô com fome, anda!

(ISABEL pega uma frigideira.)

GERALDO

Mal passado, hein!

(ISABEL dá uma frigideirada na cabeça de GERALDO, que estava distraído, e sai correndo de casa. GERALDO cai no chão com a pancada. Ele vai e se levantando, reclamando de dor.)

GERALDO

Pô, Pedrão, eu não posso bater, mas ela pode me acertar frigideirada na cabeça!

SÃO PEDRO

Ela pode não saber por que bateu, mas você sabe muito bem porque apanhou!

GERALDO

Muito engraçado...

SÃO PEDRO

Continua a história, Geraldo, continua.

CENA 39

(Birosca de Mané Araújo na Mangueira. TERESINHA e ISABEL conversam. ISABEL ainda com o hematoma no rosto.)

TERESINHA

O titio é assim mesmo, Isabel. Você sabe que ele sempre foi mulherengo. Mas de você ele gosta de verdade, eu sei disso.

ISABEL

Como que gosta?! Vive cheio de macaca aí pela rua. Ainda me bateu! Mas o meu pai vai lá ter um conversinha com ele!

TERESINHA

Mas vocês dois sempre viveram se estapeando!

ISABEL

Só volto pra casa depois que meu pai conversar com ele.

TERESINHA

E o que vai adiantar? O teu pai é deste tamaninho!

ISABEL

Você não conhece o papai. Tenho certeza que o Geraldo toma jeito depois de conversar com ele.

CENA 40

(Casa de GERALDO. O PAI DE ISABEL conversa com GERALDO.)

PAI DE ISABEL

Geraldo, eu passei aqui pra nós levarmos dois dedos de prosa.

GERALDO

Bebe alguma coisa?

PAI DE ISABEL

(Tranqüilo)

Bebo o teu sangue se encostar na minha filha outra vez!

GERALDO

(Ri, descrente)

Vai precisar subir no banquinho...

PAI DE ISABEL

(Saca uma peixeira, derruba GERALDO no chão, imobilizando-o)

Não preciso de banquinho, não, seu canalha, que coisa ruim que nem você já mandei pro além pra mais de vinte! Agora tu vai me escutar: na minha Isabel você não encosta mais um dedo, estamos conversados?!

(GERALDO, apavorado, faz que sim com a cabeça.)

PAI DE ISABEL

Se eu souber que tu encostou o dedo nela outra vez te corto em pedacinhos, todos bem menores que eu, e mando em compotas pro teu irmão lá no morro da Mangueira! Tamos entendidos?!

GERALDO

Entendi, sim senhor!

PAI DE ISABEL

Muito bom!

(O PAI DE ISABEL solta GERALDO, se recompõe e sai tranqüilamente. GERALDO se levanta, ainda assustado.)

GERALDO

Baixinho carne de pescoço!...

CENA 41

(Terreiro de samba na Mangueira. PIMENTA sentado numa mesa. CIRO chega.)

CIRO

Como é que vai, Pimenta?

PIMENTA

Indo.

CIRO

Queria conversar comigo?

PIMENTA

Queria, sim, Ciro. Por isso te liguei. É sobre o Geraldo.

CIRO

O que houve?

PIMENTA

Ele tá na maior pindaíba de dinheiro. E depois que inventou essa história de cantar os próprios sambas, os cantores pararam de procurá-lo. Se com vocês, grandes cantores, ele já não conseguia ganhar muito, imagina agora.

CIRO

Mas o que eu posso fazer? O Geraldo não oferece mais samba pra mim e desde aquele dia que ele disse que eu vivia às custas dele que eu também fiz questão de não procurá-lo.

PIMENTA

O Geraldo falou aquilo da boca pra fora. Você sabe como ele é orgulhoso. Depois do que fez contigo nunca que ia ter coragem de voltar atrás. Mas ele tá muito arrependido. Não só pelo samba, pela tua companhia também. Você sabe que ele te adora.

CIRO

O Geraldo é uma criança grande.

PIMENTA

Uma criança muito grande, esse é o problema dele. Mas a gente precisa ajudar.

CIRO

Mas fazer o quê?

PIMENTA

Bem que você podia, assim como quem não quer nada, aparecer um dia e pedir um samba pra ele.

CIRO

Você acha que ele dá?

PIMENTA

Com certeza. E vai gostar muito de te ver de novo. Faz esse favor pra mim?

CIRO

(Pensa um pouco)

Aquele safado não merece, não. Mas tudo bem, eu faço.

PIMENTA

(Comemora)

Ah! Sabia que podia contar com você! Deus tá anotando tudo isso no Livrão, Ciro. Quando você morrer vai direto pro céu! Mas, ó, surdina! Se o Geraldo souber que te procurei vai querer briga comigo.

CIRO

(Brinca)

E quem é que vai querer briga com um negão daquele tamanho?

(Eles riem.)

CENA 42

(Bar Capela. PIMENTA e GERALDO numa mesa jogando ronda e bebendo.)

GERALDO

Joga, Pimenta. É tua vez.

PIMENTA

Como é que vão os sambas?

GERALDO

Nem me fala. Eu acho que me roubam, sabia? Minhas músicas fazem sucesso nas rádios, tocam no carnaval, mas só entra mixaria no meu bolso.

PIMENTA

Vai ver o Ciro tinha razão quando falou aquelas coisas pra você...

GERALDO

Vamos mudar de assunto, vamos.

PIMENTA

E o problema na barriga? Melhorou?

GERALDO

Nada, agora boto sangue pelo cu todo dia. A única vantagem é que posso fazer exame de sangue e de fezes numa tacada só! (Ri)

PIMENTA

Já te falei pra ir ao médico!

GERALDO

Marquei pra semana que vem.

PIMENTA

E a Isabel, já voltou pra casa?

GERALDO

Não. Nem quero que volte. Mulher que vai pra samba sozinha não merece meu amor!

PIMENTA

Mas levar chifre na testa merece.

GERALDO

Que chifre, Pimenta? A Isabel é e sempre vai ser a mulher da minha vida, a número um!

PIMENTA

O problema é a número dois, a número três, a número quatro...

GERALDO

Bobagem, a número um é a que conta. O resto é só... matemática!

(Eles riem. Um HOMEM passa e esbarra na mesa deles.)

HOMEM

Perdão.

GERALDO

(Agarra o HOMEM pela gola)

Perdão é o cacete!

PIMENTA

(Agarra GERALDO, separando)

Pára com isso, Geraldo. (Para o HOMEM) Liga, não, amigo, ele bebeu demais.

(O HOMEM sai, GERALDO fica tentando se livrar de PIMENTA pra partir pra cima do cara.)

PIMENTA

Pára, Geraldo! Não agüento mais apanhar por tua causa. Toda noite tu arruma briga e eu acabo tomando porrada!

GERALDO

O cara esbarrou na nossa mesa de propósito!

PIMENTA

Que que tá acontecendo com você, Geraldo? Antigamente você era um escurinho direitinho, agora tá com essa mania de brigão!

GERALDO

(Tem uma idéia)

Peraí, Pimenta, peraí que isso dá samba!

(GERALDO canta “Escurinho”. Enquanto GERALDO canta, CIRO MONTEIRO entra e fica escutando sem que GERALDO perceba.)

GERALDO

(Canta)

"O escurinho era um escuro direitinho

Agora tá com a mania de brigão

Parece praga de madrinha

Ou macumba de alguma escurinha

Que ele fez ingratidão

Saiu de cana ainda não faz uma semana

Já a mulher do Zé Pretinho carregou

Botou embaixo o tabuleiro da baiana

Porque pediu fiado e ela não fiou

Já foi no morro da Formiga, procurar intriga

Já foi no morro do Macaco já bateu num bamba

Já foi no morro dos Cabritos, provocar conflitos

Já foi no morro do Pinto acabar com o samba"

CIRO

Esse samba faço questão de gravar! Ou você ainda continua com aquela bobagem de querer ser cantor?

GERALDO

Tá falando sério, Ciro?

CIRO

Mas é claro. Posso gravar ou não posso?

GERALDO

Não tem cantor melhor pra essa música, Ciro! O samba é teu.

(CIRO e GERALDO se abraçam, amigos.)

GERALDO

Não tá mais chateado comigo?

CIRO

Passou.

GERALDO

Amigo igual a você não existe, Ciro!

PIMENTA

Ê! E eu?!

GERALDO

Você é pobre, Pimenta. Gente fina e com grana no bolso só o Ciro mesmo.

(Eles riem.)

CIRO

Esse samba do Escurinho vai arrebentar! Vou conversar com o meu arranjador pra caprichar.

GERALDO

Capricha que esse nego tá precisando de uns caraminguá...

CIRO

Deixa comigo!

(Chega uma morena linda, acompanhada de um HOMEM e sentam numa mesa perto deles. GERALDO de olho comprido na MORENA.)

GERALDO

Que cabrocha, hein?

PIMENTA

Geraldo! A mulher tá acompanhada!

GERALDO

E daí?

(GERALDO vai até a mesa do casal.)

CIRO

O que ele vai fazer?

PIMENTA

Ele, eu não sei. Mas eu vou levar porrada novamente!...

CIRO

Por quê?

GERALDO

Gostei da tua mulher. Vou levar pra mim, algum problema?

HOMEM

Você tá bêbado, amigo. Vai curar essa ressaca em outro lugar, vai.

GERALDO

Vou, mas vou levar a morena comigo!

(GERALDO puxa a morena pelo braço e vai saindo com ela. O HOMEM pula em cima de GERALDO e o pau começa a comer. Outros caras entram na briga, defendendo o HOMEM. PIMENTA e CIRO entram na briga ao lado de GERALDO.)

CENA 43

(Birosca de MANÉ ARAÚJO na Mangueira. TERESINHA e ISABEL conversam. O hematoma no rosto de ISABEL praticamente sumiu.)

TERESINHA

O Geraldo anda pela cidade arrumando confusão atrás de confusão.

ISABEL

Quero mais é que morra!

TERESINHA

Você não acha que já tá na hora de voltar pra casa, Isabel? Você já castigou o titio o suficiente.

ISABEL

Ainda é pouco!

TERESINHA

O Pimenta me falou que ele tá amargurado, morrendo de saudades de você.

ISABEL

De mim e das outras dez mulheres que ele tem pela rua...

TERESINHA

Isabel, o titio é meio destrambelhado, mas gosta de você de verdade. Volta pra ele, volta...

ISABEL

Vou fazer ele sofrer mais um pouco.

TERESINHA

É, vai brincando. Você sabe que o titio vive cheio de mulher em cima. Quando você abrir o olho pode ser tarde demais! É isso que você quer, perder o Geraldo?

ISABEL

É. Talvez você tenha razão, Teresinha. O Geraldo já sofreu bastante. Vou voltar pra casa.

CENA 44

(Cozinha da casa de GERALDO. Ele e a MORENA da cena 42, ambos em roupas de baixo. Ela fazendo um curativo na testa dele.)

GERALDO

Então, irmãzinha, não foi muito melhor vir comigo do que ficar com aquele trouxa?

MORENA

(Ri)

Mas agora eu preciso ir embora.

GERALDO

Vai não. Passa essa semana comigo.

(A MORENA fica em dúvida.)

GERALDO

Fica! Vou te tratar como uma rainha! Você só vai precisar cuidar da casa e de mim. Mais nada.

MORENA

(Pensa)

Tá bom.

(Os dois riem e começam a se agarrar. Na sala, ISABEL entra.)

ISABEL

(Chama)

Geraldo! Geraldo!

(ISABEL ouve as risadas de GERALDO e da MORENA, vindas da cozinha, estranha e vai para lá. Ela leva um choque ao ver a cena.)

ISABEL

Geraldo?!

(GERALDO e a MORENA param de se beijar, GERALDO assustado.)

ISABEL

Você trouxe mulher pra nossa casa, Geraldo?!

GERALDO

Eu posso explicar, Isabel.

ISABEL

Explicar o que, seu cafajeste?! Cachorro! Veado! Filho da puta!

(ISABEL começa a atirar em cima de GERALDO toda a cozinha.)

GERALDO

(Se esquivando)

Essa mulher não significa nada! É só uma vagabunda que encontrei no Capela!

MORENA

(Fula)

Vagabunda?! Vagabunda é a tua mãe!

(A MORENA ajuda ISABEL a atirar coisas em cima de GERALDO, que vai se esquivando de tudo que lhe é atirado e consegue agarrar ISABEL.)

GERALDO

Pára com isso, meu amor!

ISABEL

Me larga!

GERALDO

Essa mulher era só um passatempo enquanto você não voltava pra casa.

(A MORENA fica fula e sai. ISABEL começa a esmurrar GERALDO.)

ISABEL

Me larga, seu veado! Me larga!

(ISABEL acerta um tapa na cara de GERALDO, que vai revidar, mas se contém.)

ISABEL

Você podia ter feito tudo, Geraldo, menos trazer mulher pra nossa cama! Você nunca mais vai me ver na vida. Nunca mais!

(ISABEL sai batida.)

GERALDO

Isabel! Isabel!

(Mas ISABEL já foi.)

GERALDO

(GERALDO se larga num sofá)

Merda!

(GERALDO fica ali largado um bom tempo.)

SÃO PEDRO

Não vai mais contar?

GERALDO

(Desanimado)

Perdi a vontade, Pedrão...

SÃO PEDRO

Por quê?

GERALDO

Porque depois desse dia eu nunca mais vi a Isabel... Ela sumiu no mundo, não quis mais saber desse nego aqui... A minha vida não teve mais graça, só fiz burrada depois disso, uma depois da outra. Era uma mulher e uma briga diferentes a cada noite. Mas era tão tudo igual sem a minha redentora...

SÃO PEDRO

Pelo menos conta como foi a briga com Madame Satã. Todo mundo tem a maior curiosidade de saber.

GERALDO

Foi só uma briga. Mais uma briga imbecil, como todas as outras.

CENA 45

(Bar Capela. GERALDO entra com seu violão de madrepérola branco, acompanhado por PIMENTA. Eles sentam numa mesa e GERALDO deixa o violão em pé, apoiado numa das cadeiras vazias da mesa.)

GERALDO

(Para o garçom)

Duas branquinhas e um chope!

PIMENTA

Pegando pesado, hein! (Para o garçom.) Um chope!

GERALDO

Quero beber pra esquecer.

PIMENTA

Esquecer o quê?

GERALDO

Essa merda de vida! As mulheres, só tem vagabunda! Faço samba de sucesso atrás de sucesso e não ganho tostão! Esses caras da UBC me roubam, tenho certeza! Qualquer dia vou lá e quebro tudo!

(O garçom serve as bebidas. GERALDO bebe as duas branquinhas de uma vez.)

GERALDO

(Para o garçom)

Mais duas!

PIMENTA

Esse ódio todo tem nome: saudades da Isabel.

GERALDO

Essa é outra vagabunda! Dei tudo pra ela e ela some: cinco anos que não sei nem se tá viva ou morta.

PIMENTA

Eu sei notícia dela. Mas acho que você não vai gostar de saber.

GERALDO

Conta.

PIMENTA

Ela tá casada com um bicheiro do Engenho de Dentro.

GERALDO

Vagabunda!

(O garçom serve as duas branquinhas a GERALDO, que já entorna uma.)

PIMENTA

A Isabel nunca teve nada de vagabunda, você sabe muito bem disso. Você é que vivia traindo a baixinha. E você sabia que ela não era mulher de levar chifre. Cansei de te avisar. Adiantou? Ainda foi meter mulher na cama de vocês... E a Nazaré, não te faz feliz?

GERALDO

Essa Nazaré é o diabo, Pimenta. Não dá pra folgar com ela, não. É uma delícia de mulher, mas tem os intestinos virados.

(GERALDO sente uma dor no estômago.)

GERALDO

Falando em intestino...

PIMENTA

Que foi?

GERALDO

A dor no estômago.

PIMENTA

Você ainda tá com isso, Geraldo? Você foi no médico ver?

GERALDO

Não é nada de mais, Pimenta. Passa com uma boa branquinha. (Vira o segundo copo de branquinha) Garçom, mais duas!

PIMENTA

E as evacuações? Continua botando sangue?

GERALDO

Cada vez mais.

PIMENTA

Geraldo, tu tem que ir ao médico!

GERALDO

Semana que vem eu vou.

(MADAME SATÃ, vestido na maior beca, entra e vai se sentar numa mesa próxima a eles.)

MADAME SATÃ

(Para o garçom)

Um chope!

GERALDO

Quem é o metidão?

PIMENTA

Madame Satã.

GERALDO

(Alto)

Madame Satã? O veado?

(MADAME SATÃ ouve o comentário, não gosta, mas releva. O garçom entrega o chope a SATÃ, que começa a beber. A galera em volta já prevê confusão.)

PIMENTA

Fala baixo, Geraldo! Essa bicha é barra pesada.

GERALDO

(Alto, para SATÃ ouvir)

Eu lá tenho medo de veado? E tem mais, não gosto de veado bebendo do meu lado.

(GERALDO se levanta e vai até a mesa de SATÃ. Algumas pessoas já se afastam achando que o pau vai comer.)

GERALDO

Não gosto de veado bebendo do meu lado!

MADAME SATÃ

Geraldo, tu tá bêbado.

GERALDO

Ah, sabe meu nome?

MADAME SATÃ

Sei. Você é o Geraldo Pereira, sambista da Mangueira.

(GERALDO gosta do que ouve.)

MADAME SATÃ

Escuta o que vou te falar: não quero confusão com a turma do rádio, entendeu? Gosto de vocês. Dessa vez vou refrescar, mas na próxima vez que me chamar de veado te acabo de porrada!

(MADAME SATÃ vai se sentar numa mesa longe deles. GERALDO volta para sua mesa.)

GERALDO

(Sacana)

Viu, Pimenta? A bicha me conhece!

PIMENTA

Tu tá maluco, Geraldo?! Provocar o Madame Satã?!

GERALDO

Não tenho medo de homem, vou ter medo de veado?!

PIMENTA

Ainda bem que ele não queria briga. Bêbado desse jeito você ia apanhar mais que o São Cristóvão.

GERALDO

Bêbado ou de cara limpa, sou mais eu.

PIMENTA

Sei...

GERALDO

Não acredita? Vou lá conversar com a bicha de novo.

PIMENTA

Geraldo, chega de arrumar confusão!

GERALDO

(Irônico)

Que confusão, Pimenta? Só vou conversar com a bicha. Afinal ela é minha amiga, sabe até o meu nome... (Ri e vai levantando)

PIMENTA

(Segura GERALDO, sério)

Olha aqui, Geraldo: eu tô cansado de apanhar por tua causa. Pra mim chega! Se você for provocar o Satã eu não vou te defender, não, vais apanhar sozinho.

GERALDO

Eu?! Apanhar de veado?!

PIMENTA

Depois não diz que não avisei!

(GERALDO vai direto em SATÃ e lhe toma o chope da mão.)

GERALDO

Já não falei que não gosto de bicha bebendo perto de mim?

MADAME SATÃ

E eu já não te falei que não quero confusão contigo? Devolve o meu chope!

(GERALDO vira o chope de SATÃ no chão lentamente.)

GERALDO

Bebe o teu chope agora!

MADAME SATÃ

Larga o copo!

(GERALDO põe o copo numa mesa e SATÃ lhe acerta um soco no queixo. GERALDO cai no chão e SATÃ lhe dá dois chutes no estômago. GERALDO sente muito o último chute. SATÃ vai chutar mais, mas PIMENTA chega correndo e segura SATÃ.)

MADAME SATÃ

Eu falei que não queria confusão! Eu avisei!

PIMENTA

Tudo bem, agora chega, chega!

(GERALDO geme de dor no chão. PIMENTA se abaixa para socorrê-lo. Vai juntando gente em volta.)

MADAME SATÃ

Exagerei nas pernadas, né?

HOMEM

Melhor tu sair fora antes que a Justa chegue.

MADAME SATÃ

Tem razão.

(SATÃ foge. GERALDO está meio desmaiado, meio consciente e sentindo muitas dores no estômago.)

PIMENTA

Você tá bem, Geraldo?

GERALDO

Não tô bem, não Pimenta. Minha barriga! Me chama uma assistência.

PIMENTA

(Grita, nervoso)

Alguém chama uma assistência, pelo amor de Deus!

(A luz cai e um foco se acende sobre o violão de madrepérola branco, que ficou apoiado sobre a cadeira de uma das mesas.)

CENA 46

(Hospital. Ao fundo ouvimos “Eu vou partir”. GERALDO na cama, delirando. TERESINHA e ANTONIA de sentinela a seu lado. Duas mulatas bonitonas num canto, irritadas. PIMENTA num outro canto. Ao longo da cena, GERALDO oscila entre a realidade e o delírio. NAZARÉ entra, preocupada, vai direto em GERALDO e pega sua mão.)

NAZARÉ

Como você está hoje, meu nego?

GERALDO

(Delira)

Isabel?! É você?!

NAZARÉ

Isabel?!

GERALDO

É você, Isabel?

NAZARÉ

(Se enfurece)

Isabel?! Eu te dou todo o meu carinho e você me chama de Isabel, seu cachorro?!

(NAZARÉ tenta esganar GERALDO. É contida por TERESINHA e ANTONIA.

ANTONIA

Que isso, Nazaré?! Assim você mata o titio!

NAZARÉ

Matar é pouco pra esse cachorro, Antonia!

(PIMENTA ri discretamente. TERESINHA e ANTONIA arrastam NAZARÉ para junto das outras mulatas e voltam à sentinela.)

MULATA 1

Comigo aconteceu a mesma coisa!

MULATA 2

Comigo também. Mas se o Geraldo escapar dessa, pode deixar que eu mato!

NAZARÉ

(Superior)

Por acaso, você é quem?

MULATA 1

A mulher do Geraldo!

MULATA 2

Eu que sou a mulher do Geraldo!

NAZARÉ

Vagabundas! A mulher do Geraldo sou eu!

(O pau começa a comer entre as três. TERESINHA e ANTONIA chegam nelas.)

TERESINHA

Gente! O titio à beira da morte e vocês brigando!

ANTONIA

Façam-me o favor!

NAZARÉ

Quero mais é que esse cachorro morra!

(NAZARÉ sai, irritada. As mulatas também se irritam e saem. CIRO MONTEIRO entra e vai direto em GERALDO.)

CIRO

Geraldo, meu camarada! Vim assim que soube!

GERALDO

(Delirando)

Isabel?...

CIRO

Que Isabel, rapaz! Sou eu, Ciro!

GERALDO

(Reconhece)

Ciro! Meu amigo! Ainda bem que você chegou! (À parte) Não dá pra providenciar um violão, um pandeiro e umas cervejinhas? Esse hospital tá chato demais...

(CIRO ri. Uma ENFERMEIRA entra e verifica alguns dados na cama ao lado de GERALDO.)

CIRO

Geraldo, Geraldo, tu não toma jeito...

(A ENFERMEIRA vai saindo, GERALDO belisca a bunda dela. A ENFERMEIRA olha para GERALDO, dá um sorriso safado e sai.)

GERALDO

Boazinha essa, não?

(CIRO ri.)

CIRO

Geraldo, você foi se meter justo com Madame Satã!

GERALDO

Pra você ver como é a vida, Ciro: eu sempre achei que uma dessas mulheres é que ia me matar. Acabei no hospital por causa de um veado!

(Eles riem e ficam sérios.)

GERALDO

Foi bom você ter vindo, Ciro. Já tenho pronto o samba resposta pro Escurinho. O Escurinho se arrepende de todas as besteiras que fez graças a uma mulata que parece a Marta Rocha! Não é genial? Você grava, não grava?

CIRO

Claro que gravo, mas primeiro você precisa ficar bom, pra me cantar esse samba direitinho.

GERALDO

E a Isabel, Ciro, não vem me ver?...

CIRO

(Olha preocupado para PIMENTA)

Não vejo a Isabel há muito tempo, Geraldo.

GERALDO

Desde aquele carnaval, quando eu aprontei com ela, não foi?

(CIRO confirma com um gesto de cabeça.)

GERALDO

Por que a gente faz tanta besteira na vida, hein, Ciro?

CIRO

Eu fiz muita besteira na vida, Geraldo. Mas você extrapolou! Foi provocar Madame Satã!

GERALDO

Tá difícil de viver sem a minha Isabel. (Canta) "Parece praga de madrinha..."

CIRO

(Canta o trecho de “Escurinho”)

“Ou mandinga de alguma escurinha que ele fez ingratidão.”

(Eles riem, tristonhos. GERALDO sente uma dor forte no estômago.)

CIRO

O que foi?

GERALDO

As dores tão voltando.

CIRO

Alguém chama o médico!

(PIMENTA sai correndo.)

GERALDO

Sabe o que me dói mais, Ciro?

CIRO

O quê?

GERALDO

É saber que vou morrer e vão me esquecer.

CIRO

Ninguém vai te esquecer, Geraldo.

GERALDO

Pobre, preto e sambista, ninguém lembra nesse país, Ciro.

CIRO

Não fala bobagem.

GERALDO

Vão me esquecer, da mesma forma que a Isabel me esqueceu.

CIRO

E quem disse que a Isabel te esqueceu?

 (A ENFERMEIRA e PIMENTA entram.)

ENFERMEIRA

O doutor já vem. (Checa os batimentos cardíacos de GERALDO e se afasta para preparar uma injeção.)

GERALDO

(Delira, ao mesmo tempo que sente as dores)

Isabel, minha redentora. A nossa casinha, eu vou comprar. Vou fazer um samba, que vai arrebentar, você vai ver, vou ficar rico. Rico! E nós vamos morar na França, eu você e a Etelvina... Ai!

(As dores aumentam muito e GERALDO grita.)

CIRO

Esse médico não chega!

(O MÉDICO entra e começa a examinar GERALDO, que está morrendo e segura a mão de ANTONIA, ao mesmo tempo que passa a outra mão na bunda da ENFERMEIRA. Desanimado, o MÉDICO balança a cabeça e fecha os olhos de GERALDO. ANTONIA olha para a mão de GERALDO na bunda da ENFERMEIRA e ri e chora ao mesmo, balançando a cabeça negativamente.)

CENA 47

(Portaria do Céu. GERALDO e SÃO PEDRO.)

GERALDO

A partir daí, São Pedro, não sei mais o que aconteceu.

SÃO PEDRO

Eu sei.

GERALDO

Sabe?!

SÃO PEDRO

Saber tudo é a minha profissão, esqueceu? Quer saber o que aconteceu?

GERALDO

Quero.

SÃO PEDRO

Agora é minha vez.

(SÃO PEDRO faz um gesto e a luz se apaga.)

CENA 48

(Uma capela. Um caixão, velas, flores, várias pessoas em volta, entre elas, ISABEL, que chora um choro miúdo. Num canto, afastado do caixão, um grupo de sambistas, entre eles PIMENTA. GERALDO passeia entre as pessoas sem ser visto.)

GERALDO

O que é isso, Pedrão?

SÃO PEDRO

Teu velório.

GERALDO

Tá brincando... (Repara em ISABEL) Mas peraí, aquela ali é a...

SÃO PEDRO

Ela não te esqueceu.

GERALDO

Mas ela tá chorando... Não judia assim da coitadinha, Pedrão, diz pra ela que eu tô bem!

SÃO PEDRO

Impossível. São as regras do jogo...

(GERALDO fica muito emocionado de ver ISABEL. Vai até perto dela, quer tocá-la, mas fica na intenção.)

GERALDO

Pedrão, pela nossa amizade, me concede um último pedido?

SÃO PEDRO

(Bufa)

É sempre assim! Todo mundo quer um último pedido...

GERALDO

É o meu único desejo, Pedrão! Olha, esquece essa história de céu e inferno. Pode me mandar pra onde você quiser, até no samba dos paulistas você pode me enfiar. Mas por favor, me dá mais um minutinho, só mais um minutinho com a minha Isabel!

SÃO PEDRO

Pra quê?

GERALDO

Não sei pra quê, Pedrão... só sei que eu preciso...

SÃO PEDRO

(Sorri)

Um minutinho, então.

(SÃO PEDRO faz um gesto, permitindo. GERALDO chega em ISABEL.)

ISABEL

(Sem acreditar no que vê, feliz)

Geraldo?! (Olha para o caixão e para GERALDO, alternadamente) Mas você não?...

(GERALDO está muito emocionado, ISABEL também. GERALDO canta para ela "Minha companheira". Na segunda vez, ela canta com ele e todos no velório fazem uma roda em volta de ISABEL para ouvi-la.)

GERALDO E ISABEL

 (Cantam)

"A minha companheira

No mundo é a primeira

Que me fez acreditar em mulher fiel

Não mente não é fingida

É o que eu sonhava na vida

Lamento é não conhecer há mais tempo a Isabel

Se algum companheiro

De minha consideração

Tentar contra mim

Um golpe de traição

Ela me chama e diz meu benzinho

Fulano vive contigo

Mas abre o olho que ele não é teu amigo"

(Quando acaba de cantar, ISABEL desmaia. Todos a acodem. GERALDO tenta fazer alguma coisa para ajudar, mas não consegue.)

SÃO PEDRO

Teu minuto acabou, Geraldo. Tá na hora. Vamos embora.

GERALDO

Mas e a Isabel?!

SÃO PEDRO

Ela vai ficar bem.

(Reanimada por todos, ISABEL volta a si.)

PIMENTA

O que houve, redentora?

ISABEL

Não sei... De repente eu pensei que... deixa pra lá....

(As pessoas voltam para seus lugares, os sambistas para o mesmo canto de antes, todos estranhando o que aconteceu.)

SÃO PEDRO

Vamos, Geraldo?

GERALDO

A gente não pode ficar mais um tempinho, Pedrão?

SÃO PEDRO

Pra quê?

GERALDO

Queria olhar a Isabel mais um pouquinho...

(Os sambistas, no canto, começam a rir.)

GERALDO

(Irritado)

Mas o que tá acontecendo?! Tão contando piada no meu velório!

SÃO PEDRO

Nos velórios é que se ouve as melhores piadas. Não sabia?

GERALDO

(Irado)

Mas isso é falta de respeito comigo!

SÃO PEDRO

Você também já riu muito em velório dos outros.

(Os sambistas começam a batucar numa caixinha de fósforo um samba de Ataulfo Alves.)

GERALDO

(Irritado)

Pedrão! Os safados agora tão cantando samba!

SÃO PEDRO

Enterro de sambista sempre acaba em samba, Geraldo. Você sabe disso.

GERALDO

(Fulo)

Mas o samba não é meu, é do Ataulfo Alves! Isso eu não admito! Dá licença, Pedrão.

(GERALDO vai até eles e começa a cantar, berrando, o samba "Escurinho". PIMENTA parece "ouvir" a sugestão no ar e puxa "Escurinho". Eles cantam.)

SAMBISTAS

(Cantam)

"O escurinho era um escuro direitinho

Agora tá com a mania de brigão

Parece praga de madrinha

Ou macumba de alguma escurinha

Que ele fez ingratidão"

GERALDO

(Se aproximando de SÃO PEDRO)

Agora, sim,  podemos ir, Pedrão.

(SÃO PEDRO ri, enquanto os sambistas continuam a cantar baixinho "Escurinho", batucando na caixa de fósforo. Com essa música ao fundo, SÃO PEDRO e GERALDO vão saindo de cena.)

SAMBISTAS

(Cantam)

"Saiu de cana ainda não faz uma semana

Já a mulher do Zé Pretinho carregou

Botou embaixo o tabuleiro da baiana

Porque pediu fiado e ela não fiou

Já foi no morro da Formiga, procurar intriga

Já foi no morro do Macaco já bateu num bamba

Já foi no morro dos Cabritos, provocar conflitos

Já foi no morro do Pinto acabar com o samba"

SÃO PEDRO

Agora, Geraldo, nós precisamos voltar àquele nosso assunto.

GERALDO

(Feliz)

Pedrão, depois de ver minha Isabel e ouvir os meus amigos cantando samba meu no meu velório não preciso de mais nada. Céu, inferno, purgatório, vou feliz pra onde você me mandar!

SÃO PEDRO

Isso é bom. Não vou precisar ouvir reclamação mais tarde...

GERALDO

E aí, Pedrão, pra onde eu vou?

SÃO PEDRO

Geraldo, escuta essa música.

(Os dois param para ouvir os SAMBISTAS, que ainda cantam "Escurinho".)

GERALDO

Eu conheço essa música de trás pra frente, Pedrão. Esqueceu que fui eu que fiz?

SÃO PEDRO

Pois é. Pra onde você acha que eu posso mandar um sujeito que faz um samba desse?

GERALDO

Moléstia à parte, eu sou bom pra cacete, né, Pedrão?

SÃO PEDRO

Vamos embora, convencido.

(SÃO PEDRO coloca as mãos sobre os ombros de GERALDO e os dois vão saindo juntos.)

SÃO PEDRO

Eu tenho umas letras de samba na gaveta, queria te mostrar.

GERALDO

Até você, Pedrão?!

SÃO PEDRO

Também dou minhas cacetadas...

GERALDO

Pedrão, isso tá me parecendo o início de uma grande parceria...

SÃO PEDRO

Paródia, não, Geraldo, por favor!

(Os dois vão saindo. A luz vai caindo sobre eles e sobre os SAMBISTAS que acabam de cantar "Escurinho". CAI O PANO.)

F I M