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Confira alguns textos do novo livro "Aquele estranho brilho no olho de Ana Maria". O livro é formado por 40 micro textos, definidos pelo autor como "gêneros imprecisos". Não são contos, crônicas, nem poesias, mas têm um pouco de cada um desses gêneros. Daí a "imprecisão".
MARIA TERESA Quando Bandeira viu Teresa pela primeira vez, achou suas pernas estúpidas. A primeira vez que li Bandeira, achei uma estupidez de sua parte dizer uma coisa dessas das pernas de Teresa. Quando Bandeira viu Teresa de novo, achou que seus olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo: "Os olhos nasceram e ficaram vinte anos esperando que o resto do corpo nascesse". Quando li Bandeira de novo, achei que ele podia ter razão: olhos e corpo, às vezes, parecem tão contraditórios... Na terceira vez, Bandeira não viu mais nada. "Os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face da águas". Também assim foi comigo. Na terceira vez que li Bandeira, tive a mais absoluta certeza de que ele falava de mim e de você, Maria Teresa.
BILHETINHO AZUL
Claudia Maria,
Escrevo essas mal traçadas para dizer que nosso caso não pode mais. Você é uma mulher muito perigosa.
Toda vez que eu chegava na sua casa, você estava com as pernas de fora, lindas, fazendo as unhas do pé. Quando íamos sair, você ficava horas na minha frente, tirando e colocando roupas, mostrando aquela sua calcinha em U que me deixa maluco, eu deitado na cama, que nem bobo, assistindo. Sem falar na sua mania de ficar na frente do espelho, como uma modelo, arranjando um jeito de deixar seu decote mais provocante ainda.
Mas o que me deu a certeza inexorável da sua periculosidade foi descobrir que você marca o livro de poesias do Fernando Pessoa com uma lixa de unha.
Vou me juntar à expedição científica brasileira no Pólo Sul. Quem sabe lá, isolado do mundo e longe de mulheres perigosas como você, o frio antártico consiga me fazer esquecer das suas pernas de fora, da sua calcinha em U, do decote provocante e, principalmente, daquela terrível lixa de unha encravada no Fernando Pessoa.
FELICIDADE Hoje de manhã senti uma felicidade tão de repente e tão sem sentido que dei de pensar que a vida é mesmo esquisita. Por que tanta felicidade assim de manhã, meu Deus?! Houve época em que ser feliz era feio, quase crime, atestado de alienação e burrice. Depois provaram que não: era possível, sim, ser feliz, engajado e inteligente ao mesmo tempo. Mas ainda há quem diga que só os imbecis são felizes e que a angústia do dasein é condição sine qua non nos seres evoluídos. Eu não sei. Essas coisas são muito complicadas. Filosofia me dá dor de cabeça. Acho que não sou um ser evoluído. E a verdade é tão simples: toda essa felicidade inesperada e matutina é porque você me telefonou ontem à noite, Maria Cecília. Só por isso. |